Sustentabilidade, Divagações

FreeRange doc.: A terra | A natureza | A paisagem 

( esse é um trecho do nosso documentário #freerangedoc , que estreou agora em Novembro. Para assistir na íntegra é só acessar AQUI. FreeRange doc. é um filme de @liscereja e @fabioknoll tradução e narrações @gchastang ) 

Antes a organização da vida era local. O homem do campo buscava na natureza aquilo que era fundamental ao exercício da vida e, consequentemente, nutria outros valores em relação à ela, pois constituía a base material de sua existência. A modificação da estrutura produtiva, ao longo do tempo, gerou espaços destinados à agricultura industrial e às monoculturas, remodelando configurações de trabalho em uma lógica de distribuição desigual, transformando os espaços geográficos, sobrecarregando e destruindo os solos. Essa nova estética, artificial, modificou a vida acima e abaixo da linha do horizonte, substituindo a natureza “natural” por uma natureza antropomorfizada. 

Adotamos um modo de cultivar e de comer que extermina a vida do solo, a biodiversidade e as tradições alimentares locais. Destruímos a vida dentro de nossos corpos com alimentos industriais e antibióticos, e destruímos a vida do solo com fertilizantes sintéticos e pesticidas. Mas embora nos esqueçamos com frequência, a natureza não está lá fora na amazonia, a natureza não está lá fora nos bosques. Nós somos a própria natureza, e o que fazemos com nossos solos, águas e ar, o que fazemos os outros, com as plantas e os animais, é apenas reflexo do que fazemos conosco mesmos. 

A nossa percepção sobre a existência humana moldou nossos modos de vida, nossos modos de produção e de consumo. Estes, por sua vez, moldaram as paisagens. Fomos levados à uma percepção de mundo superficial e fragmentada, utilitarista e linear, em uma constante racionalização do mundo vivido. Nós confinamos animais em fazendas e confinamos arte a museus. Confinamos pessoas em apartamentos, plantas em campos de cultivo e literatura em bibliotecas. O que chamamos de ‘racional’ ou de ‘pensamento científico’, que dominou todo o século XX, abstraiu da experiência e dos fenômenos da natureza seu caráter de unidade. Nos desconectamos de nosso entorno – portanto, de nós mesmos – nos dividindo na falsa trindade do eu, do outro e da natureza, que não se relacionam se identificam entre si. 

Para alguns povos nativos brasileiros, tudo nesta terra tem um espírito – e quando ingerimos uma planta ou um animal, também assimilamos e adquirimos esse espírito. Por isso a suma importância do que se ingeria nessas sociedades, social ou ritualisticamente: afinal nós nos tornamos, ao deglutir, esse alimento. As fronteiras entre alimento e alimentado se fundem, e o alimento já não é mais ele, é parte de nós mesmos. 

Por essa ótica, e se realmente somos o que comemos, a resposta para todo esse mundo de artificialidades, medos, desencontros, doenças, violência, faltas e desequilíbrios que vivemos nos dias de hoje  – acaba sendo bastante óbvia. 

Hoje em dia não consumimos nem 2% de todas as espécies alimentícias do mundo, restringindo nossa variedade alimentar à monotonia das espécies comercialmente viáveis que prega o sistema vigente. Cerca de 70% de todos os alimentos consumidos pela humanidade vêm de pequenos produtores, sendo que esses possuem menos de um quarto de toda a área arável do planeta. Mais de três quartos do cultivo são destinados a fazendas industriais. Somente a área de cultivo de soja, no Brasil, equivale à onze Bélgicas, num total de 33.245.190 ha. 98% dessa soja é transgênica, área equivalente a uma Alemanha inteira.

A invasão dos grandes campos de cultivo, em detrimento às pequenas propriedades de subsistência, são responsáveis não apenas pela poluição, contaminação por venenos, morte dos solos e perda de biodiversidade, mas por sérios problemas sociais e econômicos, e um intenso êxodo rural. Com cada vez menos necessidade de um trabalho “humano”, o homem do campo perde seu lugar e sua função local, sendo empurrado para a cidade. Mas na cidade os conhecimentos deste homem também não são necessários, sequer valorizados. Multidões são impelidas à subempregos, à criminalidade, à rua, à marginalização. Os poucos agricultores que ainda permanecem no campo, muitas vezes se veem reféns do agronegócio, das vendas para grandes empresas ou cooperativas, das empresas de veneno e do monopólio de sementes. O sistema agrícola vigente não integra o consumidor e o campo, inserindo uma série de intermediários que só contribuem para o distanciamento entre os dois pólos, para o desperdício de alimentos, para o encarecimento dos produtos e para o pagamento injusto das safras. Vivemos em uma era onde o trabalho agrícola, tão necessário para a manutenção da própria vida e da espécie, não tem seu devido valor reconhecido social tampouco financeiramente.

13/12/2020
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