Divagações, Vinhos

Vinho no Brasil : Imigrações, vinho & indústria.

Vinho no Brasil : Imigrações, vinho & indústria.

“Há muitas castas de uvas como boais, ferrais, bastarda, verdelho, galego e, outras muitas, até o Rio de Janeiro tem todo ano uvas se as querem ter, porquê se as podam cada mês vão dando uvas sucessivas. No Rio de Janeiro, e máxime em Piratininga se dão vinhas, e carregam de maneira que que vem ao chão com elas, não dão mais que uma novidade, já começam a fazer vinhos, ainda que o tem trabalho em o conservar, porque em madeira fura-lhe a broca logo, e talhas de barro, não as tem; porém buscam seus remédios, e cedo haverá muitos vinhos” Do Clima e Terra do Brasil, Fernão Cardim, 1590. 

Em 1789 uma medida protecionista proibiu o plantio de videiras nas colônias – lei que só perderia a validade décadas depois, em 1808, ano em que a corte portuguesa se refugiou em território brasileiro, intensificando a influência européia nos modos, costumes e maneiras de comer e beber em nosso país. 

O Príncipe regente D. João VI, sua mãe Dona Maria I e toda a corte portuguesa, com o apoio da Inglaterra, desembarcam no Rio de Janeiro com mais de 30 embarcações, pressionados pelas invasões de Napoleão Bonaparte do outro lado do oceano. O vinho se tornou forte símbolo de nobreza, de poder e de festividades religiosas e sociais.

Durante todo restante do século XIX  e início do  século XX o Brasil foi cenário de sucessivas imigrações: alemães, italianos, japoneses, poloneses, sírio-libaneses. A complexidade desse caldeirão de diferentes culturas, povos e influências, constantes migrações, imigrações e miscigenações pode parecer um tanto caótica até para nós mesmos, brasileiros, mas é fundamental para o entendimento da história da gastronomia e do vinho em nosso país. Não podemos olhar para o próprio umbigo com referências estrangeiras, embora tanto a uva quanto os homens que os vinificaram tenham também sido um dia estrangeiros em nossa terra. 

Até o século XIX os vinhos feitos no Brasil eram elaborados com castas européias, vindas de diversos lugares como Açores, Ilha da Madeira, Itália, Espanha, Alemanha – pois cada povo trouxe consigo para cá sua cultura e também suas videiras. Os alemães e principalmente os italianos foram decisivos para o desenvolvimento da viticultura no Brasil. Mas não foi uma variedade européia, e sim uma variedade americana que alavancou a produção de vinhos no país. 

Os alemães chegaram no Rio Grande do Sul nas primeiras três décadas do século XIX: ofertas de terra, isenção de impostos e custeio por dez anos foram algumas das promessas do governo brasileiro. No final do mesmo século, chegaram os italianos, na sua maioria vindos do Vêneto, Lombardia e Trentino – algumas das regiões mais afetadas pela crise posterior à unificação italiana de 1870.

José Marques Lisboa, conhecido como Marques de Tamandaré, introduziu as variedades americanas no sul do país por volta de 1840. Uma delas ganhou destaque: a uva Isabel. Resistentes, as americanas eram super produtivas e estavam sendo exportadas inclusive para a própria Europa. 

O cultivo de Isabel foi tão bem sucedido que em duas décadas ela já havia se tornado a casta predominante da paisagem vitivinícola brasileira. Em pouco tempo, devido à alta produtividade, a produção transbordou o consumo doméstico e os excedentes começaram a ser comercianlizados. Tanoeiros e tanoarias foram criados, para envase e transporte desses vinhos, e na última década do século XIX a produção gaúcha era tão grande que começou a ser vendida para outras cidades, inclusive para a capital , Porto Alegre. 

Na mesma embarcação que viajaram as videiras americanas, exportadas para a Europa, estava a filoxera, que rapidamente se tornou uma praga em território europeu, desencadeando uma crise mundial no setor do vinho. As videiras americanas são resistentes à esse pulgão de dimensões diminutas, mas as européias não. Em 1860 a praga já havia se espalhado pela Europa, devastando vinhedos e deixando  muita mão de obra disponível – parte desta inclusive utilizada em países do novo mundo, como o próprio Chile. Em menos de dez anos foi  desenvolvido o sistema de enxertia – debaixo de teorias religiosas e apocalípticas sobre a praga do vinho – e assim as raízes das próprias videiras americanas foram a solução para o problema. 

Por volta dos anos de 1900 o Brasil importava 43 milhões de litros de vinho português por ano. Nossa população era de 22 milhões de habitantes, resultando num consumo per capita de aproximadamente 2L por ano. Essa média de consumo de  vinho se mantém até hoje, muito embora mais de 1,5l desses 2l por ano, hoje em dia sejam de vinhos que chamamos “de mesa” – versões industrializadas e baratas de vinhos de uvas americanas. 

Durante o Império, no século XIX, consumíamos além dos vinhos e fermentados tradicionais, os cognacs, licores, ginger beer, cervejas, influências culturais de franceses, alemães, holandeses. Cognac era “coisa de macho”, licor, “bebida de mulher”. A ginger beer teve estrondosa penetração no consumo do brasileiro da época. Chamada por nós de jinjibirra, curiosamente era feita sem gengibre, apenas com frutas, resultando um espumante leve considerado “champanhe nacional”. 

Atualmente entre as bebidas alcoólicas a cerveja domina o mercado, e  faz parte de nossa cultura alcoólica desde o século XVII. O domínio holandês de quase 25 anos em Pernambuco, neste século, intensificou o hábito. Em 1809 John Luccock pontuou o hábito brasileiro de beber cervejas fortes. Ironia do destino – ou da indústria – hoje a cerveja comercial que está na média das mesas brasileiras é conhecida pela extrema leveza. Duas das grandes empresas cervejeiras, Antártica e Brahma, foram fundadas entre o fim do século XIX e início do XX. Parte das grandes indústrias foi fundada do final do século XIX e início do XX. 

O XX foi o grande século da industrialização do nosso modo de vida. Mudamos os modos de produção, de consumo, de cultivo, mudamos o nosso pensamento, a alimentação, as idéias sobre sociedade, valores e saúde, o trabalho.  Fomos moldados por duas guerras mundiais, por ditaduras, pela revolução verde, por avanços tecnológicos e científicos em progressão astronômica, por uma agricultura que se transformou em agronegócio e pelos alimentos que se tornaram produtos industriais alimentícios. O vinho teve o mesmo destino, assim como os  vinhos brasileiros. 

Na década de 70, durante o regime militar e o período de “milagre econômico”, chegaram as multinacionais de bebidas no Sul do país – e o que para alguns foi o início do grande desenvolvimento vitivinícola brasileiro, impulsionado pela “concorrência” interna e plantas industriais modernas, para outros foi o sepultamento dos feitios tradicionais de até então. As poucas variedades européias que ainda resistiam ao império das americanas – como a Riesling Itálico, Peverella, Trebbiano, foram dizimadas por outros vinhedos de “mudas importadas certificadas”, especialmente francesas, distribuídas em  espadeiras quilométricas pensadas para abastecer grandes volumes. Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Chardonnay, Sauvingon Blanc, Semillon, entre outras. Os pequenos produtores foram dia a dia perdendo seu lugar no mercado, e os porões de vinificação tradicionais, minguando. 

Na década de oitenta, uma das grandes empresas multinacionais focadas em espumantes, a Chandon, no Rio Grande do Sul, já produzia mais de 1,5 milhões de litros por safra, fabricados em tanques de aço inoxidável e “tecnologia de ponta”. Muitas “fábricas” de vinho se gabavam de que as garrafas “não passavam por contato humano”. A figura do vinhateiro foi substituída pelo enólogo de formação acadêmica e científica, e os campos, tomados pelas grandes empresas de agroquímicos. No final da década de oitenta, uma outra multinacional, a Almadén, já vendia cerca de 12 milhões de garrafas por ano no mercado. 

O mundo “moderno” do vinho tinha chegado ao Brasil, com suas cepas francesas, suas prensas pneumáticas, seus tanques de aço inox, suas leveduras selecionadas e seus inúmeros aditivos sintéticos, pensados para transformar qualquer mosto em um vinho  “de qualidade”, similar aos europeus, chilenos ou argentinos. 

Muito se discute sobre a entrada das multinacionais no mercado Brasileiro. É inegável que elas trouxeram novas cepas, novas tecnologias, novas maneiras de encarar o vinho, lidar com o mercado interno e externo – e também uma certa “concorrência”, que fez com que muitas vinícolas aprimorassem seu trabalho. Mas nem sempre o que é novo é bom ou gentil com as tradições alimentares e com os agricultores locais. As multinacionais fizeram com que muitos vinhedos fossem abandonados e com que muitas das uvas trazidas pelos imigrantes, esquecidas. A concorrência desleal de preços fez com que muitos pequenos vinhateiros parassem de fazer vinhos, e muitos agricultores se tornaram reféns das compras de uva pelas grandes empresas ou cooperativas. 

Na década de 1990 o mercado brasileiro foi aberto para importações,  que incluía também bebidas alcoólicas e vinhos  de diversos países. Depois de uma longa ditadura militar, tivemos nossas primeiras eleições diretas em 1982, e até a década de 90 vivíamos ainda em um mercado econômico bastante fechado. A abertura para essa nova concorrência, dessa vez de produtores de vinho estrangeiros, contribuiu em muito para fortalecer a idéia de que precisávamos melhorar em qualidade nossos vinhos. 

Mas o que é qualidade quando falamos em vinho? 

Até pouco tempo atrás, qualidade era ter uma boa pontuação, um bom padrão entre safras, técnicas modernas, muitas barricas francesas, cor e álcool intensos, aromas e sabores que encantassem a grande maioria – possivelmente com uma boa dose de modificações enológicas que visavam transformar o mosto em algo bem aceito e “bem sucedido” no mercado. Nós vivemos durante décadas em um mundo onde o padrão de qualidade dos vinhos foi regido pelo pensamento industrial e por padrões importados da Europa, Estados Unidos, Chile e Argentina. Se pensarmos bem, os próprios enólogos e sommeliers são profissionais que surgiram, depois da segunda metade do século XX, absolutamente moldados pelo mesmo pensamento industrial de qualidade e de modo e vida. E muitos de nós nos esquecemos o que é vinho de verdade. 

No Brasil não foi diferente. Passamos décadas confundindo tecnologia com técnica, modernidade com massificação e inovação com perda de identidade e de tradições. 

7/12/2020
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