Divagações

Corona: era de colapso urbano.

Vivemos mundialmente uma era de colapso urbano. Somos expostos à fragilidade de nosso modo de vida, e do alto dos edifícios, nos grandes aglomerados das grandes cidades, assistimos à implosão dos sistemas de saúde, dos sistemas sócio-econômicos, e com eles a desestruturação generalizada do pensamento, do agir e do sentir humano. Somos obrigados à voltar para nossos interiores, pessoais e geográficos.  

A pandemia do Covid-19 trouxe à tona muitas questões sobre nosso modo de vida. Nos leva ao isolamento e à uma existência sem a necessidade ou possibilidade de produzir. Nos faz pensar em estocar, em conservar, em alternativas para a manutenção da saúde, e invariavelmente, nos faz pensar quão errônea é a nossa escolha por um isolamento social nos grandes centros. O típico homem solitário em seu apartamento, falsamente conectado ao mundo por telas brilhantes, só se dá conta da solidão quando o isolamento não é escolha, mas imposição. Quando tiramos o poder da escolha da mão dos homens, eles começam a refletir acerca da validade do caminho que tomaram.

Necessitamos mudanças estruturais nas maneiras de pensar e viver, e o que vemos hoje é apenas um vislumbre de um colapso geral. É como se nosso corpo desse os primeiros sinais de uma doença grave antes de se degenerar completamente – pois assim como organismos frágeis permitem a penetração da doença, sistemas frágeis também. O mundo que construímos para nós mesmos é frágil – e mais correto seria dizer o mundo que “descontruímos” para nós mesmos, o mundo que fragmentamos, o mundo que destruímos. Nossos sistemas imunes estão tão fragilizados quanto nossos solos, e nossa microbiota, externa e interna, cimentadas pelo cinza da esterilidade industrial, urbana, científica, prática e utilitarista da própria vida. 

Épocas assim nos fazem pensar em como falhamos na simples tarefa de nos manter saudáveis. Saúde não é apenas um não estar doente. O homem urbano sem as facilidades do ambiente urbano é débil, e não sobrevive física ou psicologicamente à uma quebra do sistema vigente. O homem urbano sem supermercados, sem farmácia, sem empregos que o façam se sentir útil e ativo, sem hospitais e sem entretenimento não sobrevive. 

Convivam com suas famílias, convivam com seus vizinhos, convivam consigo mesmos, voltem-se para seus os interiores – parece nos dizer o nosso próprio tempo. O olhar para o outro e para si mesmo com mais empatia e afinidade nos parece inevitável, e próprio de tempos de crises. Nosso olhar e nossa relação com o externo são reflexo do nossos modos de vida. 

É impossível não pensar que as estruturas físicas e sociais que sobrevivem em épocas de caos são justamente aquelas que se voltam para dentro. Homens e comunidades que ainda tem fortalecidas suas essências, suas tradições médicas e alimentares, seu convívio e relação com o próximo, com o solo, com a terra. Modos de vida mais humanos, mais equilibrados, saudáveis e sólidos – considerados na maior parte das vezes, modos de vida primitivos, ultrapassados e não desenvolvidos.

17/3/2020
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