Divagações, Vinhos

Vinhos naturebas: os tais dos vinhos orgânicos, biodinâmicos, naturais.

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Sempre que entro no tema dos meus queridos naturebas, um monte de gente acaba me perguntando, afinal, do que eu estou falando. Bom, pra inicio de conversa, o termo “natureba” é como eu chamo, carinhosamente, os produtores e os vinhos que seguem uma linha “saudável” e consciente de produção. Quando digo saudável, englobo tudo: vinha, vinho, pessoas, meio ambiente, qualidade de vida, qualidade de vinho, equilíbrio, blá, blá. Pois o conceito é bastante amplo. Não é só “não usar agrotóxico” – na verdade é bem mais complexo que isso. 

Pois bem. Dentro dos produtores que seguem essa linha, existem algumas “classificações”. Coloco entre aspas, pois nem eles mesmos acabam se dividindo assim, e a grande maioria não gosta de ser rotulado. Grande parte dos melhores produtores dessa linha nem sequer se considera dentro de alguma dessas categorias, tem algum selo de certificação ou faz marketing em cima disso.

Teoricamente (bem teoricamente) existem nessa linha os vinhos orgânicos, os biodinâmicos e os naturais. 

Aliás, como a maior parte das coisas boas na vida, esse é um assunto bastante controverso e que nem os próprios produtores conseguem chegar a um acordo. Tem biodinâmico que critica o natural, tem natural que critica biodinâmico, tem orgânico que não tem selo, tem natural que adiciona um pouco de sulfito, tem natural que odeia sulfito, tem sustentável que é mais orgânico do que o orgânico com selo… Ou seja… No fundo, muito mais do que rotular o que cada um é, o interessante é conhecer o produto e procurar um vinho que reflita seus ideais de consumo e de vida – por que não?

Ué, mas nem todo vinho é natural? Não é como se fosse suco de uva fermentado? Então… não, não é.

Suco de uva fermentado é o que chamamos hoje em dia os vinhos feitos com o mínimo de intervenção humana, como os vinhos naturais, biodinâmicos e alguns orgânicos. Importante lembrar que aqui não estou falando de certificação ou selos, mas sim, da filosofia do produtor.

Os vinhos que encontramos hoje no mercado, chamados “convencionais”. Alguns falam em tradicionais, mas acho o termo pra lá de errado, uma vez que esses vinhos são produtos de uma história de menos de 50 anos, enquanto o vinho é feito a mais de 5000 – então não tem nada a ver com tradição. Esses são vinhos elaborados, as vezes mais, as vezes menos, de acordo com uma escola enológica onde o vinho é um produto feito pela mão do homem, e não da natureza. 

Podem chamar como for: vinhos convencionais, vinhos industriais, vinhos tecnológicos. O que temos é um produto que não é mais suco de uva fermentado, mas sim, suco de uva fermentado e manipulado de acordo com as necessidades do produtor, do mercado, da produtividade, do valor, e etc. O que não é necessariamente ruim, me entendam. Mas temos que saber a diferença entre um biscoito caseiro e uma bolacha recheada. Como vovó e muitos outros sábios já diziam, a diferença do remédio e do veneno é a dose. E é importante que saibamos a diferença entre esses dois mundos: o industrial e o artesanal. 

E industrializar o vinho, como a alimentação, muitas vezes engloba adições de produtos químicos de monte e modificações e intervenções diversas no produto, desde o pé da uva até o vinho engarrafado. Que não necessariamente vão fazer “mal“ à saúde, ou pelo menos não de imediato. Ou pelo menos ainda não se sabe ou não existem “estudos conclusivos”. Pois entre a teoria e a prática, existe um mundo. 

Grande parte desse estranhamento, quando falamos que hoje em dia a maioria dos vinhos é feito praticamente como se faz uma bolacha recheada, um refrigerante ou um suco de caixinha, é por que ainda existe uma imensa confusão sobre o que é vinho e como é feito o vinho. 

A indústria enológica também faz questão de fomentar a imagem de que todos os vinhos são artesanais, familiares e respeitam o terroir. Mas até o final desse capítulo – espero eu – vocês já não acreditarão em papai noel, em coelho da páscoa, em fada do dente…. e nem que todos os vinhos das prateleiras por aí são feitos assim. 

A maioria das pessoas ainda acha que o vinho que ela compra foi pisado pelos pés dos avós do dono da vinícola, e que ali dentro só tem uva fermentada. Aquela imagem da pessoa colhendo as uvas, amassando e estocando em porões, na maioria das vezes é uma grande ilusão, e longe do que é a realidade do vinho comercial. 

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Em tempo. Não estou condenando a indústria, o sistema ou as pessoas que fazem vinho comercialmente. Apenas sou a favor que as pessoas saibam – mesmo – como se faz o vinho que tomam. Para daí, decidirem qual vinho querem botar para dentro do corpitcho. Como qualquer outro alimento. 

Também não são todas as vinícolas convencionais que são o terror na face da terra. Existem trocentas vinícolas e vinhateiros que não são orgânicos mas usam com respeito, bom senso e competência os insumos enológicos e qualquer tratamento que façam. Bom senso é tudo nessa vida. E eu continuo preferindo um viticultor pequeno artesanal com bom senso que um orgânico industrial sem bom senso. 

Entre o céu e o inferno existem muito mais vinícolas do que imagina nossa vã filosofia – portanto, em vez de assumir o que eu digo como verdade absoluta ou como total asneira, vá você por conta própria pesquisar sobre o assunto, e sobre cada vinho que você bebe. Acredite. Pelo bem, pelo mal, você vai se surpreender com muitas coisas que você não sabia. Eu mesma continuo sempre me surpreendendo. 

Já tive que ouvir de amigos ou clientes, diversas vezes, quando começo a falar de como se faz vinho, que eu estava inventando coisa ou que estava querendo fazer parte de uma teoria da conspiração. E que todos os vinhos eram produtos naturais, pois vinham da uva. Bom, ainda bem que depois de muito explicar, boa parte dessa gente hoje em dia só toma vinhos não tão manipulados. Mas vamos lá.


Os vinhos não-industriais: os naturebas 

O que antes alguns produtores escondiam e sequer mencionavam no rótulo, hoje é estampado em selos verdes e propaganda em cima do assunto. Gente hippie, doida, não conformistas, contra o sistema, abraça árvore, comunistas, esquerdistas do vinho, por aí vai. Até hoje rola um certo bullying com a galera que resolveu fazer cultivo orgânico. E sendo muito sincera, boa parte dos adjetivos aí em cima, pelo lado positivo, são verdadeiros. Mas estamos agora numa era de valorização do orgânico, do “farm to table”, de uma busca de conexão com os alimentos e com a terra, com uma volta a um cultivo mais saudável e mais humano. Inegável que a sustentabilidade hoje é o foco principal das novas gerações – alimentos e vinho também. Saímos da era industrial e estamos lentamente entrando numa era de busca de novas alternativas. Mesmo porque se continuar desse jeito, é bom mesmo começar a acreditar em fim do mundo. 

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A maioria dos produtores já está preocupada em minimizar as aplicações nos vinhedos e em ter um ou outro rótulo orgânico. Inúmeros eventos, feiras e degustações pipocam por aí. Importadoras de vinhos estão começando a abrir espaço em seus portfólios, restaurantes idem. Mesmo no Brasil, já existe uma demanda desses rótulos, e o público consumidor está cada vez mais informado. Obviamente, ainda é um mercado muito menor em relação aos vinhos convencionais, mas principalmente lá fora, o crescimento está sendo exponencial. 

Não é de hoje que o tema dos orgânicos existe. Mas nos últimos anos o tema está na boca e na taça do povo como nunca. Vemos vinhos naturebas nos melhores restaurantes, nas cartas dos sommeliers mais descolados, nas revistas, nas críticas das revistas especializadas.

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Pra quem acha que o movimento orgânico e biodinâmico é coisa recente, saibam que os primeiros a levantar bandeira da agricultura orgânica fizeram isso, provavelmente….. Na época da sua bisavó. Foi na década de 20 que começou a se organizar movimentos contra a agricultura vigente ( nossa, mal sabiam o que ainda vinha por aí, hein ), e em 1924 o próprio Rudolf Steiner já dizia que a terra estava morrendo. 

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Durante as décadas seguintes, muitas iniciativas de agricultura saudável surgiram. Mas foi só na década de 60 que o movimento ganhou corpo. Muita gente ainda liga o movimento hippie, contra o sistema e as guerras, como um grande braço da agricultura orgânica. A agricultura também é uma maneira de se manifestar pacificamente. Tornar-se subsistente e independente de instituições comerciais também – e isso inclui por exemplo, as indústrias agro químicas e seus convenientes veneninhos. 

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Hoje em dia, nem 4% de todos os vinhedos no mundo são orgânicos. A boa notícia é que esse número era menos da metade cerca de 10 anos atrás. A maior parte dos vinhedos está na Europa, na França, Itália e Espanha. 

Mesmo agricultura convencional hoje em dia já se vê forçada a reduzir a quantidade de aplicações e produtos nocivos ao meio ambiente, dado ao grave desequilíbrio que esse tipo de agricultura confere e também às crescentes pressões do mercado, que parece que está começando a abrir o olho para questão do bem estar do planeta e da nossa saúde. 

Entre 1993 e 2009 mais de 700 produtos e componentes ativos foram proibidos no mundo inteiro. Outros foram acrescentados, obviamente, tendo em vista um menor impacto ao meio ambiente e aos trabalhadores que se expõe ao veneno. 

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Hoje em dia, por mais que a maioria das pessoas não pratique isso, ficou “de bom tom” levantar a bandeira ecológica. 

É inegável que muita gente – e isso vai aumentar cada vez mais, pois estamos no meio do “boom” da moda natureba –  faz produção orgânica como marketing e como estratégia de mercado, mas felizmente a maioria ainda faz por realmente acreditar que é uma maneira melhor de cuidar e curar nosso mundo, dos filhos que virão por aí e como uma maneira de ter uma vida mais saudável – além de, claro, produtos mais saudáveis, saborosos e interessantes. Vinhos, idem. Grande parte dos produtores de uvas e de vinhos orgânicos, biodinâmico ou naturais também procuram, através desse tipo de cultivo e vinificação, uma expressão de sabor e aromas melhores e autênticos. 

28/12/2019
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