Sustentabilidade, Divagações

Sobre pesticidas…

12696902_984705104899704_7574353264290169148_o
A OMS define como pesticida“toda substância capaz de controlar uma praga, em sentido amplo, que possa oferecer
risco ou incômodo às populações e ambiente”.

Podem ser uma só substância ou uma mistura de susbtâncias químicas com diversos efeitos. Inseticidas para eliminar insetos, acaricidas para ácaros, fungicidas para fungos, herbicidas para ervas daninhas, bactericidas e antibióticos para bactérias.

Hoje, na maioria dos cultivos comerciais que conhecemos, onde a agricultura em escala industrial substituiu o ambiente “natural” das plantas e a agricultura tradicional de policultura,  é comum você encontrar vastas extensões de terra com cultivos em terrenos “limpos”, sem ervas, plantinhas ou florzinhas no meio das fileiras pra contar história. Você podem se perguntar:  mas oras; uma plantação de cebolas precisa ter apenas cebolas, assim como uma plantação de tomates precisa ter só tomates, afinal, é isso que você está produzindo, vai colher e quer vender. Certo? Bom, nem tanto.

O grande problema é que esse conceito de terreno “limpo”, sem as chamadas ervas ”daninhas” ( ou seja, ervas que “danificam”a plantação ) é relativamente moderno. É um conceito que surgiu com a agricultura industrial de larga escala.

Em um cultivo onde existem ervas e plantas de outros tipos, vai haver competição por água e nutrientes do solo entre elas, e se não tivermos cuidado algumas plantas acabam dominando o terreno, “sufocando” as outras que gostaríamos de cultivar; a circulação de ar e a fotossíntese podem ser afetadas, e nosso cultivo vai desaparecendo meio as outras espécies. Com uma baixa circulação de ar, a probabilidade de aparecer algum tipo de mofo ou doença fúngica é maior. Ou seja, temos que administrar esse cultivo, deixando as ervas baixas, podando, fazendo manejos nas plantas e nos solos. Sim, tudo isso  dá um certo trabalho e exige tempo e conhecimento do agricultor.

Com o cuidado devido, ervas e plantas não atrapalham um cultivo – pelo contrário, ajudam, mantendo um ambiente equilibrado. Mas num ambiente de agricultura industrial, onde é necessário o menor esforço e o máximo de produtividade, as ervas e plantas são encaradas como “inimigos”. Vão atrapalhar o trabalho das máquinas e vão exigir muita mão de obra de manutenção. Solução? Acabar com elas.

É por isso que em uma produção industrial existe a aplicação de venenos que matam as ervas “daninhas”: venenos mais conhecidos como herbicidas. Assim as plantas cultivadas ficam com mais disponibilidade de água, nutrientes, espaço, luz, e não temos que gastar tempo nem energia pensando em outras plantas que não interessam em nada pra gente naquele cultivo comercial. Parece o paraíso.

Mas claro que não é assim. Não existe “monocultura” de nada na natureza, assim como não existe campo de cultivo “limpo” de ervas e plantas. Isso foi invenção do ser humano. E se foi invenção do ser humano, já dá pra imaginar que uma hora ou outra a gente ia dar uma patinada e esquecer de alguma coisa importante. Pois é: são justamente essas ervas “daninhas” – conceito irritante que divide as plantas e ervas em úteis ou inúteis – as responsáveis por aportar elementos indispensáveis para um solo saudável, tais como magnésio, ferro, boro, flúor, manganês, cobre, zinco, nitrogênio, rubídio, etc. Sim. Sem elas, o solo fica carente desses elementos.

Tirar as ervas e plantas de um terreno e esperar que ele “funcione” normalmente é mais ou menos como tirar o seu intestino, um dos seus rins, e esperar que você continue vivendo da mesma maneira sem tomar alguns remédios ou sem estar ligado a alguns tubos. Você desequilibra a biodiversidade vegetal, animal e bacteriana, interferindo diretamente na fertilidade e saúde do solo. E como todo mundo sabe, o solo é a “comida” das plantas.

Em uma situação ideal, na natureza, os elementos são retirados do solo pelas plantas e depois retornam a ele quando elas ou os animais que se alimentaram delas morrem. Processo lento, complexo e demorado, no melhor estilo do pó viemos e ao pó voltaremos. No caso do Nitrogênio, pior ainda, pois ele está disponível em forma de gás na atmosfera, e precisamos  de fenômenos naturais como raios, erupções vulcânicas ou  bactérias específicas que vivem nas raízes de certas plantas para fixar esse nitrogênio no solo.

Imaginemos que um agricultor quer “modernizar” o cultivo e decide eliminar as ervas daninhas com herbicidas. Se você eliminou parte do que vai aportar nutrientes para o solo, depois de um tempo, o solo vai começar a ficar pobre em alguns compostos minerais que só aquelas ervas e plantas conseguiam “devolver” para o solo. As plantas vão ficar com carência de nutrientes e da mesma maneira que nós, quando não nos alimentamos da maneira adequada, elas vão começar a ficar
doentes. Doentes mesmo. Uma série de enfermidades e bactérias ( que não existiriam se elas estivessem saudáveis ) vão surgir. E sim, plantas doentes, além de produzirem menos e com menos qualidade, uma hora morrem.

Solução? Tã rãnnn! Fertilizantes químicos para suprir a falta de nutrientes. O problema é que fertilizantes químicos vão devolver só uma parte dos nutrientes necessários para um solo saudável. E as plantas vão continuar debilitadas – e os solos, cada vez mais pobres. Então aparecem mais pragas, mais doenças geradas por bactérias e fungos. Solução? Bactericidas e antibióticos para matar as bactérias que atacaram o cultivo em desequilíbrio. Mas esses “antibióticos” e “antifúngicos” vão afetar também as bactérias benéficas que existiam por ali. Pronto, já mexeu mais onde não devia.

O mesmo acontece com on inseticidas: você elimina os “maldosos” e também os “benéficos”. Reparem nas aspas, obviamente. De qualquer maneira, existem insetos que comem as folhas das plantas e deixam sua couve feia. Assim como existem alguns insetos que comem ácaros. Sem o predador, ácaros podem contaminar um cultivo inteiro e exterminá-lo. Solução? Utilização de acaricidas. E blá, e blá, e blá.

Sabe aquela pessoa que começa a tomar um remédio e depois de um tempo está tomando mais dez, pois  acaba tomando um segundo sempre para controlar os efeitos colaterais do primeiro? Exatamente. Gente que não acorda e não dorme sem um comprimidinho. Isso é a agricultura convencional. Mas não existe remédio sem efeito colateral. Assim é  o ciclo vicioso de monocultura – agroquímicos – fertilizante sintético que formam a base da agricultura atual.

 

15/12/2017
Comente Compartilhe
×
Contact

Rua Professor Atilio Inocenti, 811,
Vila Nova Conceição, São Paulo

Telefone:
11. 3846-0384

WhatsApp:
11. 95085-0448

We recommend making reservations - Tables above 6 people only with previous menu reservation