Sustentabilidade, Divagações

Comer local.

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Infelizmente vários termos ligados à sustentabilidade hoje em dia ficaram banalizados. Inclusive “sustentável”. Produto “local” idem. De qualquer maneira, por mais besta que possa ser muita gente por aí tentando chamar de quilômetro zero seu raio globalizado de insumos, a questão do comer local é realmente importante. Vamos por partes: o que é local? Em primeiro lugar, as referências de uma cidade pequena do interior e de uma metrópole são muito diferentes. Comida local em um vilarejo de de 2 quilômetros quadrados é diferente do que podemos considerar de comida local em São Paulo, com seus napoleônicos 1520 km2. Comida local é também diferente em uma metrópole onde a área rural fica a 15km de estrada e em outra que fica a 80km. Se você está em Paris você chega na área de produção rural muito mais rápido que aqui em Sampa. É isso interfere radicalmente no transporte, no acesso, na facilidade e na maneira de se produzir. De qualquer maneira, a teoria é simples: comer local implica comer o que aquela localidade te dá. Dãã. Mas não é tão simples. O conceito de produto local não é apenas a localização no mapa: é o que os produtores da região produzem, geralmente de acordo com a cultura local, a sazonalidade e os produtos/plantas/animais/derivados regionais.

Ah, mas existe uma indústria de frango gigante na minha cidade: então isso também é local? Hmmm. Então. Não. Sempre que falamos no tal comer local, estamos, além da questão física, fomentando outro assunto: a questão do pequeno produtor, que pode ser artesanal, familiar, orgânico. Pois as grandes indústrias acabam ultrapassando os limites de cidade, de estado, de sazonalidade, de cultura alimentícia regional – então não, não são “locais”. O MacDonnalds da esquina da sua rua não é comer local, por melhor que seja essa piada. Grandes indústrias não são pensados para abastecer a vizinhança ou o mercado da cidade ( e suprir suas demandas específicas ) mas sim, pensados para o consumo nível nacional ou até mesmo internacional, com demandas bem mais genéricas e menos, digamos, personalizadas em cada região. Então comer local implica, além da questão física da proximidade, escolher os pequenos, médios, familiares, artesanais… que trabalhem com a sazonalidade e produtos regionais, e que respeitem as características alimentícias e de tradição de cada região.

Mas qual a importância real do tal comer local, de pequenos produtores? Bom, poderíamos fazer um tratado gastrosociológico aqui, mas vamos tentar resumir. Durante séculos a estrutura de alimentação se baseou em comida e produtos locais – embora sempre tenha havido uma globalização de costumes e gastronomia ( vide colonização ), a base da alimentação humana sempre se baseou no que os vizinhos ou você mesmo plantava e criava. Por maior que fosse a cidade, o hábito de cultivo e criação de animais, assim como subprodutos como leite, queijo, manteiga, geleias, pães, curados, farinhas, etc, etc, eram facilmente achados nas feiras, mercados, mercearias – ou no quintal de casa, obviamente. Com a crescente industrialização alimentar, ao mesmo tempo que mais pessoas se juntavam em cidades, menos pessoas cultivavam o campo. Ao mesmo tempo que o cultivo foi ficando na mão de empresas cada vez maiores, que cultivavam mais quantidade e menos variedade – aqui, obviamente abusando das tecnologias de plantio, agrotóxicos e monoculturas para maior produção e lucro.

Grosso modo, o modus operanti nos dias de hoje são empresas cada vez maiores, produzindo mais, em menor variedade, com mais manipulação ou aditivos, de maneira mais barata e mais lucrativa, em áreas cada vez maiores. E menos gente produzindo grande variedade em pequenas propriedades. O grande problema é que se você ou seu conhecido não está plantando sua alface, alguém está plantando pra você.  E essa terceirização da sua dieta faz com que você perca o controle sobre ela. Enquanto esse outro alguém é um vizinho ou alguém que você tenha acesso, você tem um certo controle da qualidade desse produto que esta ingerindo – a origem, o tratamento, o que foi usado ou não. Isso hoje muita gente chama rastreabilidade: você saber realmente da onde veio e o que foi feito com aquele alimento que está colocando pra dentro do corpitcho.

Quanto mais industrializado e maior a empresa em questão, menor a rastreabilidade. Isso fica fácil de ver quando lemos um rótulo: você sabe de onde vieram as frutas do seu iogurte de morango que comprou no mercado? E o leite? Você sabe quais os conservantes e aditivos que foram usados? Pois é. Claro que não. Agora se você compra iogurte natural que é vendido todo domingão na feira do bairro, a probabilidade de você pegar essas informações diretamente com o dono é muito maior – é isso te dá controle de saber e poder escolher o que está ingerindo.

A grande merda do mundo industrializado é não te dar a opção de consumo, por falta de informações claras sobre os produtos e processos de fabricação. E de você não ter nenhum poder de reclamação, sugestão ou trocar ideia. É muito mais fácil pedir um queijo de leite cru pra leiteira da feira do que ligar no SAC de um mega lacticínio e dizer que você prefere seu queijo fresco com menos sal semana que vem – a chance de você passar por louco na segunda opção é grande. Justamente pois você, consumidor, pode até ter a opção de comprar ou não comprar algum produto. Mas não tem poder nenhum de decisão sobre ele. É a velha história de que, com informação, todo mundo acaba fazendo as melhores escolhas. Sem informação, você fica vítima do marketing, do lobby, dos rótulos que enganam, dos interesses corporativos, enfim… dos interesses do tal do “sistema” alimentar vigente.

Ok. Entendido. Então comer local e industrialização não andam juntos ( obviamente não estou falando em pequenas indústrias locais, estou falando aqui da alimentação industrial massiva. Quem tem uma fabriqueta de queijos em sua cidade obviamente é diferente de um lacticínio gigantesco ). Mas porque, raios, comer local? Voltamos a pergunta. Bom, os motivos são vários. Em primeiro lugar, comer o que se planta ou o que se produz localmente é uma maneira de conservar as tradições regionais, conservar as sementes regionais, conservar os métodos de preparo e técnicas locais. É uma maneira de comer barato ( um alface na feira vai ser mais barato que o mesmo em um supermercado, geralmente ) e mais fresco ( o produto não precisa andar quilômetros de distância para ser vendido ). Aliás, você já parou pra pensar quantos dias aquela maçã embaladjénha no supermercado ( que não está nem na época no Braza ) tem depois de colhida? Hmf. Bom. Se você imaginar que algumas chegam de container pelo mar de outros países, rola uma estimativa. Nossa, bastante tempo, né? É. Tem maçã que tem mais de ano. Como faz? Na maioria, pra não estragar, se taca conservante y outras cositas más na galera. Então por A + B, a chance de você ingerir menos porcaria em produtos cultivados e vendidos localmente é maior.

Temos que entrar na questão também da qualidade dos produtos “locais”. Não é por ser local que ele vai ser bom. Não é por ser local que ele vai ser artesanal. Não é por ser local que ele vai ser pequeno produtor. Não é por ser local que ele vai ser orgânico. Ahhh! Mundinho complicado. Na verdade, produto local não significa coisa nenhuma, hoje em dia, é na maioria das vezes só mais uma # da modinha. O lance é conhecer mesmo o produtor e os processos, para você decidir entre o mar de “produtos locais”, quais deles estão mais de acordo com suas filosofias alimentares. De qualquer maneira, é sempre mais interessante consumir um produto local e que não seja necessariamente orgânico do que um produto orgânico industrializado que não seja local. E olha que sou eu, a chata dos orgânicos, falando isso. Motivo? Novamente a questão social: incentivar os pequenos produtores a continuar produzindo é uma das maneiras de você combater a industrialização massiva da alimentação. Incentivar o pessoal do campo a continuar no campo ( e conseguir se sustentar de maneira decente para ter uma vida digna ) é a primeira coisa: depois a gente luta pros métodos e cultivos ficarem mais saudáveis. Mais gente no campo, mais produção de qualidade, menos produção massiva, menos migração pra cidade grande, menos infladas as metrópoles, blá, blá, blá. E quando você começa a consumir produtos locais, automaticamente você vai ficar mais crítico ( pois você tem um diálogo direto com o produtor ) e o produtor vai ficar mais consciente, devido à pressão da comunidade local. Pois nenhum cristão em sã consciência quer comer porcaria. E essa pressão do consumidor local é muito importante, pois é poder de mudança a curto prazo. Do simples fato de você pedir pro feirante te cultivar um manjericão diferente à mudar a consciência de plantio dos mesmos.

Já falei anteriormente que comer local engloba muitas coisas. Além de incentivar a estrutura de pequena produção regional, manter cultura alimentar e tradições locais, ser uma maneira de consumir mais barato, mais fresco, mais saudável e ter maior acesso e diálogo diretamente com o produtor, temos também a questão importantíssima da variedade alimentar. Consumir produtos locais geralmente vai te dar de bandeja o que a natureza selecionou “especialmente” para aquela região. De acordo com o clima, com a história, com o solo, com as tradições locais, com a época do ano. E comer as coisas da região, na época certa, é obter o melhor de cada alimento. Sem contar que numa estrutura social agrícola de pequena produção, é viável o cultivo e produção de uma variedade muito maior de alimentos. Cada qual faz um tipo de conserva, cria um tipo de bicho, faz um tipo de queijo. Cada produtor tem seus próprios tipos de fruta, de milho, de mandioca, faz uma farinha diferente. E diversidade é a melhor forma de nos mantermos saudáveis de dentro pra fora – sem contar a preservação de espécies, principalmente vegetais, que numa sociedade de alimentação industrializado, estão caindo no esquecimento. O sucesso das pancs ( plantas alimentícias não convencionais ) prova isso: hoje já temos que catalogar de novo o que se come ou o que não se come, pois o povo já não sabe o que é que, o que serve pra quê e quais as variedades alimentícias que tem na sua cidade ou quintal. Muita gente compra salada de saquinho e não sabe que tem um pé de rúcula selvagem no terreno de casa. Não precisa ir longe, os exemplos são cotidianos.

É só perguntar para uma criança a cor do milho que ela vai te responder que o milho é amarelo – sendo que existem na verdade uma paleta de pantones infinita, principalmente pra gente aqui das Américas. Mas como o milho amarelo americano dominou o mundo através de monoculturas intensivas, transgênicas e produções cavalares, a maioria das pessoas só conhece milho amarelo mesmo. Taioba. Quem hoje em dia consome taioba? Só quem ainda tem suas raízes caipiras ou chef de cozinha que está tentando resgatar essas tradições. Que tristeza: o meio ambiente perde e sua saúde perde. Por isso mesmo que o consumo de insumos locais vai, invariavelmente, estimular a preservação de espécies regionais. Conclusão do textão? Coma local. Mas saiba o que isso significa pra não ser enganado nem cair em roubada.

28/11/2017
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