Vinhos

Artesanal, sem SO2, não filtrado: não é vinho natural.

Hoje a gente vai falar de vinhos artesanais, feitos com mínima intervenção sem adicão de So2, não filtrados, wilds, de pequenos produtores, com uvas vindas de agricultura familiar. Vamos falar de petnats, de vinhos feitos em ânforas, de escala humana. Ou seja, a gente está falando de vinho natural, né?

Então, não. A gente não tá. 

Nada do que eu falei ali em cima caracteriza vinho natural. A gente pode chamar de um montão de outras coisas e todos podem ser ótimos em diversos níveis, mas não são necessariamente vinhos naturais. 

A única coisa que define um vinho natural é agricultura limpa, sem venenos, e uma vinificação sem insumos enológicos – com aquelas duas variantes que eu já expliquei, pois tem uns grupos que aceitam mínimas dosagens de SO2 e outros não. 

Então não, por mais artesanal e bem intensionado que seja um vinho, se ele não tiver uma uva sem veneno, ele não é natural. 

E hoje vou falar justamente disso, pra tirar algumas dúvidas da galera, afinal, o movimento dos vinhos naturais no Braza tá crescendo, e com ele, muita gente que não sabe direito o que está fazendo, dizendo, vendendo… e do lado do bebedor, bebendo ou levando pra casa. 

Vamos explicando então um por um desses termos usados no mundo do vinho natureba pra ninguém mais ficar perdido no limbo de dizeres que não querem dizer muita coisa. A começar pelo meu novo queridinho: o “ vinho feito com mínima intervenção”. 

Ahhh, que coisa linda, né gente. Um vinho feito com mínima intervenção. Mínima intervenção. Agora me fala. Você sabe quais são as intervenções feitas em um vinho? Hm. E o que seria uma “mínima intervenção”? Se você pode usar 150 aditivos no vinho, você usa 2 ou você usa 50? Desses aditivos, você usa produtos sintéticos ou não? E o conservante SO2, é mínima intervenção? Quanto de SO2 e em que parte da vinificação você usou? E as leveduras? São selvagens ou são selecionadas? Se você não usar aditivos mas usar leveduras e SO2, é mínima intervenção? Bom…. se você não soube responder essas questões, não se sinta sozinho… pois ninguém sabe responder. Sabe porque? Porque “feito com mínima intervenção “ pode dizer qualquer coisa. E na maioria das vezes não quer dizer nada, só é colocado no rótulo pra você acreditar que o vinho é limpo, mas na maioria das vezes, não é. Salvo algumas exceções de vinhateiros que usam o termo “mínima intervenção” da maneira correta, ou seja,  dizendo que o vinho é feito de maneira natural, ou seja, que não tem aditivos enológicos ou técnicas invasivas,  no máximo um tico de SO2, permitido eticamente pelo mundo do vinho natural….. a grande maioria só fala isso pois chama público. Tipo aqueles restaurantes que colocam “comida saudável, sem glúten, superfoods” no cardápio, sabe? Meio que isso. Então da próxima vez que você ouvir “feito com mínima intervenção”, pergunte. Pois você pode se surpreender positivamente, como muitos amigos meus que falam “feito com mínima intervenção” e fazem mesmo uma vinificação natural…. Mas você pode ter muitas surpresas ruins, como vinhos completamente convencionais que usam desse jargão natureba apenas pra parecerem mais… naturebas. 

Próximo. Artesanal. Sobre isso, vale lembrar que ARTESANAL não significa nada no mundo dos vinhos naturais. Só significa que foi feito de maneira artesanal, em pequena escala, prioritariamente com trabalho manual, familiar. Mas não significa que é natural, biodinâmico, orgânico …. Nem que é bom ou ruim. Você pode fazer um vinho artesanal com uvas de agricultura convencional e cheio de aditivos enológicos. Aliás, sinto informar, mas a grande parte dos vinhos de pequeno produtor ou que se entitula artesanais, ou são com uva convencional, ou usam aditivos enológicos na elaboração, que nem qualquer outra indústria; ou, pior ainda, as duas coisas, e que é a maioria: usam uvas convencionais Eeee aditivos enológicos, tá? Bom, em tempo. Existe uma gama enorme nos vinhos artesanais, e tudo vai do produtor. E sim, eu continuo preferindo um pequeno produtor agrícola convencional de agricultura familiar do que uma supermegablaster produtora de vinhos orgânica, simplesmente por conta da ética social e de toda uma estrutura social e cultural que está envolvida. Tenho muitos amigos que vinificam em pequena escala uvas convencionais, e são todos vinhos ótimos. Acho que temos, em primeiro lugar, valorizar e apoiar esses produtores artesanais, seja de vinho ou seja de qualquer coisa… mãsssssssssss. Só não chama de vinho natural, né gente. Senão pega mal. 

Aproveitando o ensejo do artesanal, a gente pode colocar tudo o que é: feito em escala humana, agricultura familiar, de pequeno produtor, etc, etc. Tudo isso é muito legal, desde que não seja pra “fazer entender” que é agricultura limpa. De novo, você pode fazer uma agricultura super convencional mesmo no seu jardim. Então uma coisa é uma coisa e outra coisa… é outra coisa. 

Daí a gente tem a turma que faz vinho de tampinha, vinho turvo, petnat, vinho em ânfora, vinho glouglou, vinho em bag in box, vinho em litrão, vinho de uva americana. Não, gente, nada disso quer dizer que o vinho é feito de uva limpa e não usa aditivo enológico na vinificação, tá? Nada. Aliás tem até gente que tá vindicando Isabelão cheia de veneno, e o povo compra achando que só porque é americana, o vinho tá limpo. Mais laranja, menos laranja, petnat ou ânfora não quer dizer que é natural. Sem filtrar, menos ainda: você pode não filtrar qualquer vinho convencional, e estar turvo não vai deixar ele mais natural. É que nem pegar um legume de agricultura convencional, não lavar, e dizer que “não lavar”deixa ele mais natural. 

Bom, mas e o SO2, gente? Se não colocou SO2, então o vinho é natural. Não. Não passou nem perto. Primeiro, você pode vinificar de maneira natural uvas convencionais. Aliás, é o que muita gente faz no Brasil e em alguns outros países onde o movimento esta começando, então recomendo sempre vocês se certificarem com os produtores, pois, mais uma vez, nada contra fazer vinho artesanal com uva convencional, tem espaço pra todo mundo, vai ser muito melhor do que um vinho industrial e todo mundo pode fazer tudo nessa vida….  desde que o bebedor esteja com a informação CLARA do que ele está bebendo. É só isso que eu bato na tecla. Mas voltando pro SO2. Sabendo que você pode vinificar sem insumos mesmo uma uva cultivada com veneno…… ué, não colocar SO2 não significa nada. Só significa que você não colocou SO2. Aliás, já vi muito vinho cheio de outros aditivos enológicos e sem So2. Ou então, como eu também já disse em outros episódios e discorri largamente no episódio so2 ou não so2…. Já existem vinhos industriais, convencionais, sem so2. Pois se usam outros tipos de substancias pra conservar, outros aditivos, e daí a galera estampa no rótulo “sem so2”. 

OK. Mas e Wild fermentei, fermentado com leveduras selvagens, fermentado com leveduras selecionadas do próprio vinhedo? Ah, gente, me poupe né. Você amassa a uva, ela fermenta. Você joga água na farinha, ela fermenta. Tudo fermenta nessa vida, até a gente. E sim, uvas convencionais cheias de veneno também podem fermentar de maneira espontânea. Mas o que acontece muitas vezes é que a galera seleciona leveduras do vinhedo ou ditas selvagens, e depois inoculam no mosto, pra fermentar. Ou seja, é uma levedura selvagem, mas não é uma fermentação expontânea. E isso não quer dizer patavinas também, pois depois de fermentar de maneira espontânea você pode tacar 345 insumos diferentes pra corrigir, modificar e deixar o vinho da maneira que voce quiser. Tá, exagero meu, vai, não sao 245. Mas uns bons cinquentinha a cento e cinquenta, segundo as práticas da indústria brasileira, rola fácil. 

Ah, gente, eu sei. Eu sou chata, eu sou inconveniente, eu falo o que o povo não quer escutar…. Mas é que tem muita mutreta nesse meio, infelizmente. E muitos amigos acabam levando vinho artesanal pra casa achando que é vinho natural. E de novo, não tem nada de ruim você tomar um vinho artesanal só, feito com uvas convencionais…. Ou até um vinho feito pela indústria, galera. Mas o que não pode é a gente não saber o que é o que. Pois quando a gente não sabe, a gente perde nosso poder de escolha, e a gente fica na mão de muita gente de má fé, ou então que usa de jargões naturebas pra vender mais. 

O melhor dos mundos seriam muitos pequenos produtores familiares cultivando de maneira limpa? Claro que sim. Mas a gente sabe que a realidade não é bem essa, e o sistema inteiro faz com que seja mais difícil, pratica ou psicologicamente, partir pra um cultivo organico. Os produtores não conseguem financiamento, a industria de veneno pega pesado nos interiores desse brasilsão, e o ciclo vicioso todo foi formatado pra galera do campo ficar viciada em insumos agrícolas e enológicos. Então óbvio que a gente não quer ver nenhum pequeno produtor passando fome sem vender uva porque ele não produz organico… massssssss, não custa nada dizer que tem outras maneiras de fazer. Não custa nada incentivar o povo a abrir o olho e partir pra uma agricultura limpa, que vai fazer bem pra nossa saude e pra saude do planeta. Não custa nada a gente dizer que você pode investir em práticas orgânicas ou então em plantar seu vinhedo, ao invés de vender rótulos hipsters. 150 pau a garrafa ou trocar teu carro por um modelão carésimo. Não custa, mas no final, também, cada um faz o que pode e cada um tem mais é que ser feliz. O que não pode é ser cegado, seja pela fama, seja pela pobreza, seja selo agronegócio, seja pelo mercado, seja pela moda, seja pela ignorância imposta, seja pela preguiça. O moimento do vinho natural é muito mais que o vinho, é muito mais que a uva, é muito mais que um estilo de bebida. E a gente tem que sempre levar a informação mais clara e justa pros bebedores, pra que eles possam escolher com consciencia o que eles querem colocar corpitcho adentro. 

19/8/2021
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