Divagações

FreeRage doc. : O Vinho, migrações & indústria.

( esse é um trecho do nosso documentário #freerangedoc , que estreou agora em Novembro. Para assistir na íntegra é só acessar AQUI. FreeRange doc. é um filme de @liscereja e @fabioknoll tradução e narrações @gchastang ) 

Durante o século XIX e início do século XX o Brasil foi cenário de sucessivas imigrações: alemães, italianos, japoneses, poloneses, sírio-libaneses. Os alemães e principalmente os italianos, nas regiões mais ao Sul do país, foram decisivos para o desenvolvimento da viticultura no Brasil.

A complexidade desse caldeirão de culturas, influências, pessoas, constantes migrações e imigrações  pode parecer um tanto caótico até para nós mesmos, mas é fundamental para entendermos a história da gastronomia e vinho em nosso país. 

Os alemães chegaram no Rio Grande do Sul nas primeiras três décadas do século XIX: ofertas de terra e isenção de impostos foram algumas das promessas do governo brasileiro. No final desse mesmo século, desembarcaram os navios de imigrantes italianos, na sua maioria vindos do Vêneto, Lombardia e Trentino – algumas das regiões mais afetadas pela crise posterior à unificação italiana de 1870. 

Até o século XIX os vinhos feitos no Brasil eram elaborados com castas européias, vindas de diversos lugares como Açores, Ilha da Madeira, Itália, Espanha, Alemanha. Cada povo trouxe consigo, além de sua cultura, suas castas de uva. Mas não foi uma variedade européia, e sim uma variedade americana, que alavancou a produção de vinhos no país.

José Marques Lisboa, conhecido como Marques de Tamandaré, introduziu as variedades americanas no sul do país por volta de 1840. Uma delas ganhou destaque: a uva Isabel. Resistentes, as americanas eram super produtivas e estavam sendo exportadas inclusive para a própria Europa. 

O cultivo de Isabel foi tão bem sucedido que em duas décadas ela já havia se tornado a casta predominante da paisagem vitivinícola brasileira. Em pouco tempo, devido à alta produtividade, a produção transbordou o consumo doméstico e os excedentes começaram a ser comercializados. Foi a uva Isabel que permitiu o desenvolvimento da produção fora do âmbito doméstico e comercialização de vinho no país. 

O XX foi o grande século da industrialização do nosso modo de vida. Mudamos os modos de produção, de consumo, de cultivo, mudamos o nosso pensamento, a alimentação, as idéias sobre sociedade, valores e saúde, o trabalho.  

Fomos moldados por duas guerras mundiais, por ditaduras, pela revolução verde, por avanços tecnológicos e científicos em progressão astronômica, por uma agricultura que se transformou em agronegócio e por alimentos que se tornaram produtos industriais alimentícios. O vinho teve o mesmo destino. 

Na década de 60 e 70 chegaram as multinacionais de bebidas no Sul do país – e o que para alguns foi o início do grande desenvolvimento vitivinícola brasileiro, impulsionado pela “concorrência” interna e plantas industriais modernas, para outros foi o sepultamento dos feitios tradicionais de até então. 

As poucas variedades européias que ainda resistiam ao império das americanas – como a Riesling Itálico, Peverella, Trebbiano, foram dizimadas por outros vinhedos de “mudas importadas certificadas”, especialmente as francesas, distribuídas em  espadeiras quilométricas pensadas para abastecer grandes volumes. Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Chardonnay, Sauvingon Blanc, Semillon, entre outras. Os pequenos produtores foram dia a dia perdendo seu lugar no mercado, e os porões de vinificação tradicionais, minguando. 

Na década de oitenta, uma das grandes empresas multinacionais focadas em espumantes, no Rio Grande do Sul, já produzia mais de 1,5 milhões de litros por safra, fabricados em tanques de aço inoxidável e “tecnologia de ponta”. Muitas “fábricas” de vinho inclusive se gabavam de que as garrafas “não passavam por contato humano”. A figura do vinhateiro foi substituída pelo enólogo de formação acadêmica e científica, e os campos, tomados pelas grandes empresas de agroquímicos. No final da década de oitenta, uma outra multinacional já vendia cerca de 12 milhões de garrafas por ano no mercado.

Nós vivemos durante décadas em um mundo onde o padrão de qualidade dos vinhos foi regido pelo pensamento industrial e por padrões importados da Europa, Estados Unidos, Chile e Argentina. Se pensarmos bem, os próprios enólogos e sommeliers são profissionais moldados pelo mesmo pensamento industrial de qualidade e de modo e vida. Pouco a pouco muitos de nós nos esquecemos o que é vinho de verdade. 

No Brasil não foi diferente. Passamos décadas confundindo tecnologia com técnica, modernidade com padronização e inovação com perda de identidade.

11/12/2020
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