Comida

Lírio do Brejo: chá de lírio, geléia de lírio, risotto de lírio, polvilho de lírio do Brejo….

Se não podemos vencê-la, vamos comê-la! Assim fazemos com as plantinhas que invadem os lugares e se multiplicam sem pedir permissão. Sempre conhecidas como “pragas”, agora foram alçadas ao status de PANCS: plantas comestíveis não convencionais, ou seja, dá pra comer mas não temos o hábito. O que é fenomenal, pois é uma forma de aproveitar alimentos que geralmente não aproveitamos, e que na maioria das vezes, são expontâneos e baratos.
Aqui em casa isso acontece com os bambús e com o gengibre branco, também conhecido como lírio do brejo.
Quem me acompanha sabe que agora estamos fazendo várias coisas com ele. Modinha? Copiando chef famoso? Não, meu filho, é que faz seis meses que me mudei para uma casa onde tem uma floresta, literalmente uma floresta de lírio do brejo. E como estamos na pegada de plantar as coisas aqui em casa para levar para a Enoteca, nada mais óbvio conceitualmente do que aproveitar algumas coisas que já estão espontaneamente aqui no terreno. São elas o lírio do brejo, as major gomes, as taiobas, e por aí vai. 
Então estamos aqui no processo de tentar aproveitar o lírio ao máximo: polvilho, geléia, chá. Ah, claro. Sempre você pode colher umas flores e deixar enfeitando e perfumando a casa, quando estiver com preguiça de fazer qualquer uma das opções acima… hahaha
Lá na Enoteca, estou usando geléia de lírio do brejo nas tábuas de queijos e embutidos. E também as flores frescas em um risotto de lírio do brejo e cogumelos da mantiqueira. O Cauê, lá da cozinha da Enoteca, fez uma crema catalana aromatizada com lírio, o povo pirou. E esse final de semana fiz uma gelatina de leite de coco e leite de cabra, com lírio do brejo também. Ou seja, é só botar a cabecinha pra funcionar. 
Vamos falar um pouco sobre o tal do lírio do brejo. Dizem que o chá de talo dá um certo barato – já tentei, mas em mim não deu nada – mas as flores e as raízes, que são na verdade rizomas, são extremamente aromáticos. Aliás, alucinógeno ou não, o chá de lírio do brejo é uma delícia. 
Gengibre branco, açucena, jasmim borboleta, butterfly ginger se quiser ser chique e falar com sotaque. Mais conhecido como lírio do brejo mesmo. Uma das panc’s da moda, já virou receita em muito prato de chef legal por aí, como nos restaurantes Mani e Tuju. 
A raiz ( rizoma ) é rica em amido e quando transformada em polvilho, pode virar biscoitos, cremes, pães, mingaus, pudins, sorvetes, o que você quiser… e não é a toa que chamam de gengibre branco: tem um picante delicioso, floral e aromático. Dá pra usar como se fosse o gengibre, fresco, em sucos, molhos, sorvetes, quentão ( hmmm… ). Pra transformar em farinha ( polvilho ), tem que bater no liquidificador com água, esperar decantar e secar essa “pasta” – deixando pendurado num pano, como queijo, para escorrer. Depois de seco, voilà, está pronto pra virar pãozinho. Na medicina tradicional, é usado também pra combater a tosse e como anti-inflamatório. As flores também são comestíveis. Pra quem não sabe, a sigla Panc é de “planta alimentícia não convencional “, pois são plantas que saem do circuito comercial do consumo – algumas que eram consumidas mas foram esquecidas, outras que se descobriram comestíveis agora, por conta de pesquisas.
POLVILHO DE LÍRIO DO BREJO: 
Pois bem, aqui estou batendo os rizomas de lírio do brejo pra fazer polvilho! Trampo absurdo que vai render, quizás, 500g de polvilho de lírio. 
Tem que coletar os rizomas ( as “raízes” do lírio, parecem gengibres grandes e cheirosos ), cortar em pedacinhos ou ralar, depois bater no liquidificador com água, passar por um pano de algodão e deixar essa água coada, leitosa, decantando. Amanhã o polvilho vai estar decantado no fundo das tigelas. Então temos que separar a água, deixar secando e peneirar. Como se faz um polvilho de mandioca, por exemplo. Com esse polvilho, você pode fazer biscoitos, farofas, mingaus. 
GELÉIA DE LÍRIO DO BREJO: 
Com as flores, adoro fazer geléia. Levo a maioria pro restaurante, e deixo sempre um potinho aqui em casa. 
Eu como não tenho muita paciência pra ficar seguindo muito receita, a minha fica sempre um híbrido entre geléia e compota. Uso duas maçãs grandes, suco de dois limões, 1/2 limão inteiro, uma xícara de açúcar demerara. Coloco tudo na panela com especiarias, umas 6 xícaras de flores frescas, e água. Deixo no fogo baixo durante muitas horas, até começar a caramelar e tomar corpo. Quando as flores estão transparentes e com carinha já de geléia, tiro do fogo e coloco em potes herméticos. 
O limão a gente usa em geléias caseiras por causa da pectina, geralmente encontrada na casca, que ajuda dar a textura característica das geléias. A maçã, idem. Ajuda a dar textura e doçura, tem também pectina e acidez. A acidez vai fazer com que a geléia depois não cristalize.  Frutas como maçã, limão, frutas vermelhas, goiaba, cítricos, cerejas ácidas, jabuticabas, ameixas…. São ricas em pectina e acide, ótimas pra fazer geléias ou entrar na composição delas. 
Pra fazer pectina “caseira” concentrada, é só juntar as partes brancas dos cítricos, como laranja, limão, e bater com água. 1 xícara de partes brancas para 3 copos de água. Depois, levar ao fogo por meia hora, coar com pano e guardar. Se usa em média 100ml para cada 500g de fruta. Existe também pectina industrializada, mas já que dá pra fazer em casa e ainda reutilizar as cascas das frutas que geralmente jogaríamos fora, melhor, né?! 
CONSERVA DE LÍRIO DO BREJO – LACTOFERMENTADA
Aqui estão alguns rizomas de lírio do brejo em soro de leite de cabra, pra ver como fica.
Já se falou muito sobre os lactofermentados, mas sempre bom reforçar que são ótimos para a saúde. São excelentes probióticos é uma maneira excelente de conservar alimentos durante muito tempo. De quebra fica uma delícia.
Quem quiser as receitinhas de lactofermentados e muito mais artigos sobre o tema, dá uma chegada no blog da Pat Feldman, vale a pena. 
O que eu fiz foi descascar os rizomas, cortar em fatias bem fininhas e colocar num pote hermético com metade soro de leite de cabra, metade água. Sal, pimenta, ramo de alecrim e bamba. Três dias fora da geladeira e o treco já começa a fermentar que nem doido, quando abre parece que abriu um espumante. Depois desses três dias, pode ir pra geladeira. Fica uma delicia e perfumadíssimo, parece uma conserva de gengibre, mas com o toque floral delicia do lírio. 
Não consegui nenhuma informação se os rizomas são ricos em amido resistente ou não ( alimentos que são ótimos pra flora intestinal e de quebra saciam e são aquela ajudinha no controle do peso ). Resistente ou não, existem estudos até da utilização para bio-plásticos, utilizando lírio do brejo. Uau. 
Mãs…. não, o lírio do brejo não é brazuca, como muita gente pensa. Hedychium coronarium é artigo importado. Embora seja hoje considerada uma PANC e elevada a título de plantinha cobiçada pela alta gastronomia, ela na verdade veio pra cá da Ásia, na década de oitenta, e virou uma super praga, pois por onde ela se instala, meio que tira todo mundo do lugar. Pra biodiversidade isso não é a melhor coisa do mundo, mas já que ela veio e ficou, bora fazer mais coisa com ela. 
As flores podem ser usadas pra chás e também cozidas, como as flores de camélia, pra acompanhar arrozes, pastas, saladas. Conserva dos rizomas ou das flores, geléia das flores, dá pra brincar bastante. Ele é conhecido como gengibre branco, pois “meio que se parece”. Pra mim, parece mesmo um gengibre, mas com cheiro de flor. 
Medicina popular credita efeitos tônicos e cardiotônicos às flores, além dos rizomas serem excitantes e anti-reumáticos. Se usa também como cicatrizante, antibiótico, bactericida, ativador de circulação, fortalecedor do sistema imunológico, bom pra vitalidade física, mental e opa! Sexual também. Pra gripes e infecções também pode se usar um chazinho, escalda pés garante prevenção de doenças típicas do inverno é uma cheirada nos óleos essenciais dá um up naqueles momentos deprê. Há quem diga que é bom para dores musculares e enxaqueca. 
28/3/2016
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