Divagações

Causos da Enoteca: o dia que a casa caiu.

Um dia a casa cai, todo mundo sabe. Mas quando isso acontece literalmente, é de dar um certo desespero.

Ano de 2014, verão, sexta de lua cheia, casa lotada. Fila de espera , gente no balcão do bar. Um amigo liga reservando uma mesa pra 8, só de “gente importante, que precisava levar num lugar legal e tranquilo”. Tudo lindo.

Daí começa a chover, umas seis da tarde. Daquelas chuvas de alagar Sampa em 10 minutos.  Lá da cozinha, vejo a movimentação do meninos, arrumando as mesas: estava escorrendo água do forro do gesso para as paredes. E uma pãtza goteira bem em cima do sofá do salão de dentro. Ok, casa antiga, época de chuva, é uma merda mas acontece. Tiramos os móveis, isolamos o salão… e a chuva começou a ficar mais forte. Escorria cada vez mais pelas paredes. Tivemos que isolar o salão e – como ficamos preocupados – ligamos para o engenheiro. Ele nos recomendou fazer pequenos furinhos no forro, tirar a água que tinha ficado represada entre o forro e o teto. Fizemos os furos. Caiu água pra abastecer a a cidade, mas pelo menos tínhamos resolvido o problema.

Tudo sobre controle, o salão isolado, abrimos a casa. Lotada, só lembrando. Sexta feira, gente bonita, casais românticos, grupinhos alegres.

Dez da noite começa a chover de novo. São Pedro devia estar com muita raiva de alguém, pois foi uma das chuvas mais fortes do ano. Resultado? As goteiras voltaram. Ou melhor, a água começou a pingar pelos furos que tínhamos feito do teto, no meio do salão. Parecia que tinha 5 mangueiras lá em cima – uma instalação meio Bienal de arte moderna. Até aí tudo bem – uns baldes de água resolveram a situação, e até que ficava um gotejar simpático no ouvido.

Mas a chuva não parou. Aliás, ficou mais intensa. E os baldes começaram a não dar conta. Tirei uma das meninas da cozinha pra ficar só trocando os 5 baldes de água daquela parte do salão.

E a chuva continuou. “Sai um menu degustação!”E a água, que antes estava escorrendo pelos furos, começou a cair pelas paredes como se fosse uma cachoeira dentro do salão. “Solta o entrecorte!”. O pior , começou a vazar pelos baldes, que não davam mais conta e escorrer pelo chão, pro resto do salão. Sem contar que o teto era de gesso, então a água descia branca e leitosa, como se estivéssemos dando um banho de leite na Enoteca. A água das goteiras e da parede começou a ficar tão forte que respingava nos clientes dos salões mais próximos.

E a casa bom-ban-do. Sai um camarão! Sai um risotto! Serve o vinho da mesa 12!

Tiramos mais uma pessoa da cozinha para ajudar a conter a água. Agora com mais baldes, latões de lixo e também panos. Muitos panos pra ajudar a secar a água que caia do teto. Até os guardanapos sobressalentes entraram na história.

Só que aí a água começou a vazar pelo lustre central, e o Ramatis parou de atender o salão para poder ficar secando a água que caia pelo teto, pelos furos, pelas paredes.

“Senhor, o senhor gostaria de se mudar de mesa?” – dizíamos para um cliente que tinha uma goteira bem em cima da cabeça, respingando no risotto, no vinho, no guardanapo. “Não, não, está tudo ótimo!”

Ahn? Daí o treco foi ficando surreal.

Só eu e mais um na cozinha, só uma pessoa no salão – o resto dos funcionários todos tentando secar e conter a água que vazava pelo salão do sofá. E a casa mais cheia do que nunca. Menu degustação rolando, mesa grande, tudo o que tem direito numa sexta feira.

Sempre dizemos que nesse dia o Rama perdeu uma das 7 vidas. Estava ele lá embaixo da pingadeira do lustre, bem no meio do salão, já todo molhado de água e gesso, com um pano na mão já enchardado tanto quanto ele, quando um cliente chama: “Rama, vem cá”.

Ele virou, deu dois passos … e o teto caiu inteiro no chão. Inteiro. O teto, o forro de gesso, o lustre, os fios e mais uma tonelada de água que estava acumulada no forro.

Poderia ter passado um elefante rosa voando, nessa hora, que teríamos achado normal. O estrondo foi tão grande que escutei lá da cozinha. Putaqueopario, caiu o teto. Acho que eu coloquei a mão na cabeça e fiquei alguns segundos sem reação alguma, debruçada na boqueta, até me dar conta do que tinha acontecido.

A água inundou a Enoteca inteira, deixando uns 4 dedos de água no piso. Aberto, a chuva que lá fora estava torrencial entrava direto pelo buraco que tinha se formado. Deu curto no lustre do teto. Desligamos a luz geral, os fornos, o ar condicionado.

O Ramatis subiu numa mesa e disse pra todos que infelizmente não iríamos conseguir atender mais ninguém – que pedíamos desculpas, mas …. o teto tinha caído.

Mas ninguém saiu. Pelo contrário. Quem estava jantando continuou jantando. Enquanto continuávamos tentando domar a água, arrastando o que estava no chão com rodos e panos e baldes. Enquanto chovia dentro da Enoteca. Ninguém saiu. Continuaram a pedir vinhos. Quem teve que sair da mesa por causa de goteira ou de água no chão, foi pra mesa do vizinho. Fizeram amizades. Saiu namoro. Alguns se levantaram com as taças e ficaram no bar, conversando com os outros.

O cliente que “salvou” a vida do Rama, nessa hora se levantou e disse pra banda de jazz, lá em cima da cozinha, que tinha parado de tocar, atônita com a situação: “Meninos, quando o Titanic afundou, a banda afundou tocando!!”. E eles começaram então a tocar novamente, versão acústica.

No escuro, música tocando, os clientes não só não foram embora como começaram a ajudar a gente a contornar o caos. Todos sorrindo, todo mundo num clima de ajuda coletiva que poucas vezes vi na vida. Cliente gringa de salto alto com rodo na mão, dançando e colocando água pra fora. Povo bebendo vinho e carregando os móveis. Alguns que secavam as águas das mesas e perguntavam a diferença entre vinho natural e bio. Alguns tiraram a própria camiseta para ajudar a conter a água que escorria. Um de nossos clientes soube do que estava acontecendo, acordou, levantou da cama e veio ajudar. “Fulano, o que você está fazendo aqui!?” “Ué, um amigo me disse o que tinha acontecido, acordei e vim ajudar”.

Quando a chuva parou, todos os clientes – mesmo os que estavam ensopados, mesmo os que tinham perdido parte do menu degustação – levantaram, ajudaram a arrumar tudo, e ainda fizeram questão de pagar pela refeição, com o serviço, mesmo a gente dizendo que não era necessário devido à situação.

Todo mundo sabe que um dia a casa cai. Esse foi, disparado, um dos dias mais bizarros da história da Enoteca. Mas sempre que eu perco a fé na humanidade – o que não é raro – lembro desse dia. O que importa não é a casa cair. Que realmente importa é quem vai estar do seu lado quando isso acontecer.

5/11/2015
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