Divagações

VINHOS BRASILEIROS: Se vingar a Salvaguarda, estou junto no boicote a certos produtores nacionais.

“A Secretaria de Comércio Exterior (Secex) determinou a abertura de
investigação para averiguar a necessidade de aplicação de medidas de
salvaguardas sobre as importações brasileiras de vinho. Circular nesse
sentido foi publicada hoje, no Diário Oficial da União. “As informações
apresentadas continham indícios suficientes de que o crescimento das
importações de vinhos ocorreu em condições que causaram prejuízo grave à
indústria doméstica”, informa em nota o Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior (MDIC).”

“Se a medida
passar, vou propor um boicote aos vinhos nacionais”, Mario Telles,
vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP).

Eu sempre fui uma partidária do vinho nacional. Já distribui pequenas vinícolas, tenho os produtos brasileiros na primeira página da minha carta de vinhos, meu vinho em taça é um vinho nacional, e além disso, sempre tento colocar produtores ainda desconhecidos, pequenos, para promover a cultura do vinho brasileiro.

Agora, se a medida de salvaguarda ao vinho brasileiro for aprovada, faço das palavras de Mario Telles as minhas. Vou fazer um boicote aos vinhos nacionais. Mais especificamente, aos produtores que estão de frente nesse projeto – afinal, os pequenos produtores, além de não concordar, não tem absolutamente nada a ver com essa história.

Explicando: um grupo de vinícolas grandes e poderosas, no Brasil, se juntou para exigir medidas protecionistas ao mercado brasileiro. Esse grupo é formado pela Cooperativa Vinícola Aurora Ltda., pelos Vinhos Salton S/A, pela
Vinícola Miolo Ltda., pela Cooperativa Viti Vinícola Aliança Ltda.,
ABEGE – Participações Ind. e Com. de Bebidas Ltda. e pela Lovara Vinhos
Finos Ltda.

Na idéia deles, impendindo ou dificultando a importação de vinhos estrangeiros para o Brasil, que estariam usando de “medidas desleais e desiguais” dentro de nosso mercado, o consumo de vinho nacional aumentaria.

Explicando de novo: o imposto sobre os vinhos nacionais é um dos mais absurdos que se tem notícia na história. Como bom país tupiniquim, ainda é taxado como bebida alcoólica, sendo que na maior parte dos países produtores, o vinho é taxado como alimento. Além disso, o vinho nacional só foi sair do ostracismo quando houve a abertura da mercado na década de 90 ( ou seja, quando os vinhos importados entraram com tudo no mercado nacional e os produtores brasileiros foram “obrigados” a aumentar a qualidade, melhorar a tecnologia, marketing e distribuição.).

Bom, quem acompanhou até aqui o raciocício já deve estar se perguntando: mas que raios? Se a abertura do mercado foi uma das melhores coisas que poderia ter acontecido para o vinho brasileiro, agora eles estão querendo voltar atrás? É, é mais ou menos isso.

Por quê esse mesmo grupo, tão poderoso no RS e no Brasil, não se junta para diminuir os impostos sobre o próprio vinho nacional? Não sei. Sinceramente não dá para entender como nossa presidente sobre num palanque no meio da festa da uva, diz que é uma grande aliada dos produtores e comerciantes de vinho brasileiro, e “concebe” uma medida medieval como essa.

Só duas vezes na história do Brasil se deu uma medida de Salvaguarda: para brinquedos ( que já caiu ) e para o coco ralado ( que vai cair agora em 2012). Agora, me desculpem. Vinho? Desde quando inibindo a entrada de vinhos estrangeiros os brasileiros vão consumir mais vinhos nacionais?

O Brasileiro não consome vinho nacional por vários motivos, que passam bem longe da grande oferta de bons produtos estrangeiros nas prateleiras. O brasileiro não consome vinho nacional pois nunca tivemos essa cultura. Por que as grandes instituições ligadas ao vinho não fazem um marketing decente. Por que o vinho brasileiro, por causa dos impostos, ainda é caro em relação aos concorrentes estrangeiros. Por que o vinho não é considerado um alimento, e sim uma bebida alcóolica. Por que os coitados dos pequenos produtores no Brasil não tem absolutamente nenhum incentivo para produção ou distribuição de seus vinhos. Por que nossa história de vinhos de qualidade não soma mais de 20 anos. Por que sim, já se produziu muita coisa ruim, e precisamos de um trabalho sério de publicidade, degustaçõs e incentivos para que essa ideia de que “vinho nacional é ruim” mude. Por que os próprios donsos de restaurante preferem colocar como vinho da casa um argentino ou um chileno, e muitas vezes nem tem vinhos nacionais na carta.

Eu poderia citar mais cinquenta motivos sócio-econômicos-culturais que fazem com que o brasileiro consuma mais vinhos importados do que vinhos nacionais ( em se tratando de vinhos finos, que fique bem claro… pois quando falamos em vinhos de mesa e espumantes, o produto nacional abocanha mais de 70% do mercado). E me parece muita burrice de certos produtores brasileiros achar que se não tiver concorrência, da noite pro dia o consumidor vai cair nas graças do produto nacional.

Sabe o que vai acontecer? Se não houver baixa dos impostos no produto nacional e não tivermos mais opções de vinhos estrangeiros no mercado, em vez do povo consumir vinhos brasileiros, o crescimento no consumo de vinho vai cair! Alguém realmente acredita que uma pessoa deixa de beber um vinho nacional por que existem outras opções no mercado?

E outra: se essa preferencia pelos estrangeiros existe, temos que ver o por quê. Não adianta simplesmente matar o amante da sua esposa, e sim, saber por que ela tinha um amante, certo? Pois é.

Enquanto os produtores e o governo não tiverem a consciência do PORQUÊ os brasileiros não consomem mais vinhos finos nacionais, metidas estúpidas como essa vão tirar o nosso sono.

Veja outras pessoas que acham as medidas um absurdo e se pronunciaram contra a Salvaguarda: 

“Se as medidas propostas pelo Ibravin forem aprovadas, iremos retroceder
ao fim dos anos 1980, quando as cartas de vinho tinham poucos rótulos,
muitos de qualidade duvidosa”, Ciro Lilla, da importadora Mistral. ” O setor de vinhos pode voltar ao fim dos anos 1980, com poucos rótulos e de qualidade duvidosa.”
“Eu
espero que haja um pouquinho de sensatez por parte das autoridades em
evitar essa bobagem. Eu espero que as entidades do Vinho no Brasil
tenham a maturidade de se sentarem na mesma mesa, como propõe o Comitê
do Vinho FECOMERCIO, para discutirem como adultos os problemas do Setor.
Eu espero que o governo entenda que tem que desonerar o vinho
brasileiro em vez de onerar ainda mais o importado ou de inviabilizar o
trbalho de brasileiros que importam vinho. Eu acredito na União e na
Inteligência.” Didú Russo, Fecomercio.

“Além de ter um efeito parcial, já que a Argentina estaria isenta da
medida por ser do Mercosul, a salvaguarda fatalmente vai gerar
retaliações de outros países, prejudicando nossas exportações”, 
Raquel de Almeida Salgado, presidente-executiva da Associação Brasileira
dos Exportadores e Importadores de Alimentos e Bebidas (ABBA). “E se a
sobretaxa for aplicada, os vinhos importados ficarão 23% mais caros.”

“Precisamos de pressão internacional para coibir estas ações das
vinícolas nacionais”, diz Jorge Lucki.
“É uma forma de acabar com o mercado do vinho europeu no Brasil.”

“O que ninguém explica é por
que  um mercado que cresceu mais que o dobro do PIB precisa de medidas
radicais”, diz Lilla, da Mistral. “Se cresceu tudo isso, como pode estar
em risco de colapso?”

Nós, do setor comercial e “cultural” do vinho no Brasil, temos que nos unir para impedir que medidas burras como essa entrem em vigor. Se a Salvaguarda vingar, tiro do meu estabelecimento os rótulos dos produtores que encabeçaram esse projeto.

E vamos torcer que isso não vá pra frente!

Saúde!
Lis Cereja

17/3/2012
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