Viagens

Criado Solto Sicília: Palermo

Por favor, um expresso e um “tubus farinarius, dulcissimo, edulio ex lacte factus”. Vulgo canolli. Foi assim que em 75 A.D. ( faz tempo… ) Marco Túlio Cícero descreveu esse tubinho de massa doce e recheio de leite. Hoje se sabe que provavelmente nem era o mesmo doce, e os canollis sicilianos como a gente conhece hoje, recheados com ricotta, surgiram durante o domínio árabe da ilha, que durou aproximadamente dois séculos. Um expresso e um canolli talvez seja a duplinha mais óbvia e mais representativa de quem chega por ali, e sinceramente, vale a pena sempre que der. Os cafés na Sicília são um show à parte, e os canolis, idem. Claro que os melhores não vão ser nos lugares mais famosos, e quanto mais no interiorzão, mais surpreendido provavelmente você vai ficar com a qualidade o expresso e do docinho típico siciliano. 

Agora, se você acha que o Brasil já é uma pãtza zona de mescla de culturas, não imagina o que é a Sicília. Essa ilha teve influência de um zilhão de culturas ao longo dos séculos, de gregos, árabes até alemães, ostrogodos, aragoneses, judeus, piemonteses, espanhóis e até da dinastia Bourbon. Um caos. Mas um caos de uma beleza que quase te cega, de tão grandiosa e tão colorida.

Comecemos a viagem pela Sicília pelo começo, por Palermo. Foi onde cheguei de avião vindo de Roma ( uma horinha ),  é uma cidade linda, deliciosa e um poço de cultura. Confesso que fiquei apenas um dia, então não deu pra ver praticamente nada – o que me deixa bastante frustrada, pois tenho mania de chegar num lugar e tentar esgotar todas as possibilidades possíveis. Mas de qualquer maneira, como a idéia foi fazer essa viagem para conhecer os produtores sicilianos de vinho natural, eu tinha que focar nisso pra não me perder pelo caminho. E se perder pelo caminho na Sicília é fácil, bem fácil. 

 Eu fui de avião, mas dá pra chegar na ilha também pelos aeroportos de Catania e Trapani. Tem o trem, é claro, cruzando o estreito de Messina, rolê super legal: é bem mais cansativo, e até Nápoles, por exemplo, é uma viagem de mais de dez horas; mas pra quem tem espírito mochileiro e adora uma paisagem na janela, vale super a pena. De barco também vale a viagem, pro povo mais pirata, e daí vale procurar qual a melhor alternativa pra cada caso. 

Mercado de Ballarò, Palermo.

Essa aqui é uma das feiras de rua mais antigas da cidade e está no mesmo lugar desde o século X. Caótica, monumental, pessoas gritando, motos passando, muçulmanas de burca, crianças correndo. Um retrato da cidade, à céu aberto. Tomates mais vermelhos do que a gente poderia acreditar, peixes frescos chegando, canollis, cafés, polvos vivos. Entre as comidas, os bolinhos de batata, as panelles ( feitos de grão de bico ) e os arancini ( bolinhos de arroz ) são obrigatórios, além da infinidade de frutas secas, pistaches da cidade de Bronte ( a “cidade do pistache” ), bottargas de atum, azeitonas gigantescas, azeites. Aliás, azeite é uma coisa própria aqui na Sicília – a variedade de azeitonas e a seriedade com que eles encaram o produto é uma coisa impressionante. É turístico sim, é abarrotado sim, mas continua sendo um passeio fantástico. Via Ballaro, Palermo, das 7h30 às 20h30. Site: https://it.wikipedia.org/wiki/Ballarò_(Palermo)

La Feltrinelli,  Palermo

O lado nerd bomba quando passa por uma livraria. Confesso que quando viajo não compro roupa, não compro bolsa, não compro sapato. Já tive minha época de encher a mala de CD’s, mas hoje em dia já não me parece tão necessário nesse mundo de nuvem e Spotify ( embora eu ainda sinta saudades da época em que ficava lendo as letras das músicas no encarte e escutava o CD inteiro de cabo à rabo ). Agora, livro, comida e vinho…. ahh, esquece. Daí é excesso de bagagem na certa. Tanto que eu até evito, em viagens, entrar em livraria, senão é estrago na certa. Vou ficar carregando aquele peso a viagem inteira, vai dar pau no tamanho da mala, e no fim…. bom, no fim tudo vale a pena se a alma não é pequena, e eu continuo adorando comprar livro em viagem. Cada um com suas loucuras. Essa livraria aqui, em especial, mata dois coelhos de uma vez. Tem uma seleção linda de livros sobre comida e sobre vinhos – muitos sobre vegetarianismo e vinhos naturais, além de várias coisas de literatura, arte, viagens e filosofia – e um café delícia dentro da própria livraria, filial da tradicionalíssima Antiga Focacceria San Francesco. Ou seja, você toma um puta expresso ( não sei o que a galera faz na Sicília, mas os espressos deles são todos de cair o queixo, até pra gente que nem eu que sou definitivamente da turma dos coados…), um canolinho de ricotta dos bem bons ( instituição siciliana ), e ainda fica ali pirando horas nos livros. O que mais a gente pode querer da vida? Via Cavour, 133, Palermo, das 9h30 às 21h.  Site: https://www.lafeltrinelli.it/?utm_source=google-mybusiness

Antiga Focacceria San Francesco & Igreja de São Francisco de Assis 

É tipo comer um sanduba de mortadela no mercadão, em Sampa, ou visitar a confeitaria Colombo no Rio. Turista que é turista tem que ir e pronto, e vamos parar de achar que a gente não é turista. Essa focacceria tem quase 200 anos e é uma das mais famosas de Palermo. Vale pelo apelo histórico, pelas várias comidinhas de boteco que você pode pedir ali no balcão, ou levar, ou sentar nas mesinhas de fora. O prédio histórico é lindo e a pegada é de comida popular. Tem serviço de sandubão “live” ali na tua frente, com a galera fazendo os  tradicionais Pani ca’Meusa ( sanduíche de baço de vitelo ) à rodo, com fila na porta pra angariar um. Pra adoçar a vida, os famosos canollis de ricotta e  as cassatas, óbvios e obrigatórios. De petiscos, as sardinhas Beccafico – sardinhas recheadas com uma misturinha de pão, temperos, uva passa;  os arancinis – bolinhos fritos de arroz recheados ou não; as panelles – panquecas de grão de bico que você come com limão, e dependendo da fome, também pão; os cazzilli di patate – bolinhos de batata fritos. Tipo de comida que você encontra na rua e também nos mercados, pra matar aquela fominha de cultura alimentar que bate no meio da tarde. Fome de cultura alimentar? Lógico! As vezes nossa fome não é de comida, é de cultura. E comer é uma ótima maneira de aprender sobre um povo e sobre a história de um lugar. Via Alessandro Paternostro, 58, 90133 Palermo PA, Itália, das 11h às 23h. Site: http://anticafocacceria.it/it/

Em tempo. Não dá pra não falar que o lugar onde a Focacceria está, em frente à basílica de São Francisco de Assis ( que dá o nome à focacceria) é uma praça absurdamente bonita. A igreja tem história que começa lá no século 13, passou por todos os séculos e escolas artísticas até hoje, com várias modificações e intervenções, foi reformada no século 19 por conta de um terremoto….. e é uma das coisas mais lindas da cidade. Bom, eu sou daquelas que além de livraria também é incapaz de passar na frente de uma igreja e não entrar, então pra mim não é nem uma opção passar reto. Tem missa à 7h30 e às 17h no Sábado, de domingo também às 10h e 12h. Mas abre todo dia mais ou menos das 7h às 11h e das 16h às 18h ( de segunda à sábado ) .Via del Parlamento 32, Palermo. Site: http://www.basilicasanfrancescopalermo.it

 

28/8/2018
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