Viagens

Quinto dia: invadindo o mundo Maia, Chichén Itza e arredores.

A idéia era visitar Chichen Itzá. Ok, tudo mundo faz isso. Mas como minha amiga não conhecia, achamos que devíamos ir mesmo assim, mesmo sabendo que todos os turistas do México estariam lá.
Dirigimos até de noitinha, para Piste, uma cidadela perto do sítio histórico. Ficamos num hotel de beira de estrada – bem de filme de terror mesmo – só para dormir um dia, pois no dia seguinte de manhazinha iríamos para as ruínas.
Por sorte, no restaurante que jantamos nesse noite tinha um maitre muito dos simpáticos que acabou ligando para o irmão, que era guia turístico. E ele topou nos levar no outro dia para as ruínas. 
Melhor coisa que nos aconteceu nessa viagem foi esse guia, o Ramon. Maia, se formou em arqueologia, manjava pra caramba de história e de cultura do seu povo, super empolgado e animado em nos passar a maior quantidade de informação possível, da maneira mais apaixonada que já vi. Resultado: fizemos Chichén em duas horinhas e nos mandamos, com ele, para outros sítios históricos abandonados, para vilarejos maias e para a casa de alguns parentes dele, onde pudemos conversar, comer, cozinhar junto e aprender bastante sobre a cultura desse povo, absurdamente importante para o México e para o mundo inteiro. 
 
Começamos o dia em Chichén Itza, uma das ruínas mexicanas mais conhecidas e mais lotadas de turistas também. Não conhece? Vale a pena, tem que ir. 
Os
Maias vieram para a península de Yucatán e encontraram vários outros
povos por aqui, que já habitavam o México. Eram um povo agricultor,
apicultor, que manjava pra caramba de matemática, arquitetura e
astronomia.

Poderia falar um milhão de curiosidades sobre
eles, mas a que mais me chamou atenção foi a história sobre os crânios:
muitos crânios alongados, como se fossem “ets” foram achados em tumbas
e ruínas maias. Hoje já se sabe que os maias faziam deformação do
crânio intencional ( apertavam com uma faixa desde recém nascidos, assim
a cabeça ficava comprida e pra cima ).

Até aí ok. O que estão
estudando e comprovando agora é que isso talvez tenha feito toda a
diferença na civilização maia inteira. Aparentemente, essa deformação
causava uma formação do crânio permitia a utilização de praticamente
100% do poder de inteligência do cérebro: o que explicaria a
inteligência “extraterrestre” desse povo.

A cabeça alongada também era considerada um status de beleza.

 
Depois de Chichén, fomos nos embrenhar por vilarejos maias. Quando falo vilarejo maia não estou brincando. Tem gente que mal fala espanhol, só maia. O povo preserva a cultura, a religião, os costumes, a comida.
No meio do caminho, Ramón nos perguntou se queríamos parar num cenote “que quase ninguém ia”. 
Lógico. Macaco quer banana? rss
Pois é. Com absoluta certeza um dos locais mais bonitos que já estive na vida. Cenote Lol Ha.

Queríamos conhecer mais cenotes ( rios subterrâneos ) e Ramon nos levou
a um, perto das ruínas abandonadas de Yachunah, que é original. Pois
muitos dos cenotes turísticos são falsos, ou meio falsos, com partes
colocadas ou construídas para ficar mais bonito e mais fácil.

Esse buraco redondo gigantesco no chão surge
do nada, com uma ribanceira absurdamente vertiginosa que acaba num poço
de água fundo, fundo, fundo, transparente e azul. Você vê o abismo pra
baixo da água, peixes e a natureza exuberante escalando e descendo as
pedras em forma de raízes compridas como cipós, até tocar a água.

Quem estava lá?

Só a gente.

Uma escada de uns 15 metros, colada na pedra, te leva pro fundo, onde
você pode já mergulhar. O acesso é difícil e a escada dá medo em muito
homem criado. Mas a sensação de estar ali sozinha num lugar como esse
foi impagável.  

A
escadinha da vertigem: quase 20 metros grudada na pedra até o fundão do
Cenote Lol Ha. Pra botar medo em muita gente grande e fazer chorar em
horário nobre.  
 
Depois de nadar nos cenotes, um tour pelo interiorzão das cidades maias, Yaxcabá, Chimay.

Antes de começar o “tour”, uma paradinha para abastecer de cervejas
mexicanas e um aperitivo ( que acompanha a cerveja ) de tamarindos,
mel… E chili habanero, claro. Viciei. Queria vinte. 

A famosa naranja agria, que se usa para cozinhar, marinar, e claro, em vários drinks pela região.

A Cochibita Pi Bil, porquinho super típico assada em lenha enterrada na
terra e coberta com folhas de bananeira, é marinada com ela.

Também de come com sal, limão…. e chili habanero, por supuesto. Comi
uma inteira assim. E repito: o povo aqui NÃO brinca quando o assunto é
pimenta. Ou como eles chamam o habanero aqui, “picante”.

   
 Assim
que se come a naranja agria por aqui: você tira a casca, põe sal, Chile
habanero, espreme e toma o suco. Delicia. E abre o apetite.

Quando
os Maias chegaram aqui ( estamos falando da primeira metade do milênio
depois de Cristo ), eles já eram povos agricultores e apicultores.
Quando chegaram aqui começaram a cultivar abóboras, frutas regionais e
claro, o milho, sagrado pra eles até hoje. Uma das lendas maias,
inclusive, diz que os homens vieram do milho.

Hoje, os povos
maias continuam sendo basicamente agricultores. Aqui, na hortinha de uma
das primas do nosso guia, ainda as mesmas coisas que sempre se
plantavam, e mais algumas que foram introduzidas mais tarde, com os
espanhóis. Como o abacate. Pois é, antes dos espanhóis não existia
abacate … e nem galinhas. Os ovos e os abacates, tão presentes na
cozinha mexicana de hoje, na verdade vieram depois dos espanhóis.

 

 Feijões, tomates país ( aqui eles chamam de tomates “pais” os tomates
crioulos mexicanos. Achei engraçado pois a uva “país” provavelmente
também tem esse nome por ser uma uva considerada regional ), vagens,
papaia, mangas, verduras, chaya ( uma folhagem típica daqui, que eles
comem como espinafre ), árvores de tabasco ( gentee, a árvore do tabasco
é enormeee ). Tudo na horta. Algumas cabras e galinhas para carne,
porcos – “normais” e “maias”, que são porcos sem pelo.

O que
me surpreendeu bastante foi encontrar aqui na horta um cará moela! É! Um
cará moela! E ela me disse que eles cultivam isso desde sempre. Fiquei
curiosa pra saber da onde veio e pra onde foi.  

 

Nossa
primeira ” degustação ” de cozinha Maia foi a farinha de sementes de
Abobóra tostadas. 

Pega as sementes da abóbora pequena ( um tipo
específico, redondo, pequenininha e doce ), tosta na lenha, depois mói à
mão para fazer uma farinha.

 

 Isso se come com tortillas (
depois de passar um chili habanero por ela, para ficar picante ), seco e
também com água, formando uma pasta. Pode salpicar por cima da comida,
pode fazer um molho, pode fazer.. Tortillas de semente de Abobóra.
Genial.  

 

 

Moendo
as sementes de Abobóra para fazer farinha. Comemos essa farinha pura e
também misturada com água. Com água, se forma uma pasta, que pode também
ser temperada com tomates e coentro.

As casas maias típicas
são feitas de barro ( barro e palha de milho ), madeiras e teto de folha
de palmeira. O fogo a lenha tem duas funções: cozinhar e fazer fumaça –
a fumaça espanta qualquer bicho que queira se aproximar das casas, como aranhas, cobras, o que seja.

Com essa farinha de Abobóra também se faz um prato bastante típico, os
papadzules: tortillas feitas de semente de Abobóra, recheadas com ovos
cozidos, molho de sementes de Abobóra e farinha de semente de Abobóra
por cima.

E eu achando que estava arrasando com meu gnocchi de
Abobóra inteira, lá na Enoteca. Voltando vou correndo fazer farinha de
semente……….. Rs 

Uma das formas de comer as sementes de Abobóra: farinha, dentro de tortillas de milho branco, com chili habanero fresco.  

Tortillas
de milho branco, farinha de semente de Abobóra tostada e chili habanero
fresco. Primeiro quitute Maia que comemos aqui com a família do Ramon,
nosso guia, que virou amigo ( também Maia ) que nos levou pra conhecer
um pouco mais da sua cultura no interior dos vilarejos.

Eles ficam bastante putos da vida quando as pessoas dizem que a civilização maia acabou. Eles estão aqui, preservam a língua, preservam os costumes, os rituais e a religião.

O deus da chuva continua sendo muito importante pra eles: eles fazem
rituais com oferendas de comidas e bebidas nas secas ( entre setembro e
outubro ), pedindo abundância. É nos rituais que também se bebem as
bebidas alcoólicas, feitas com milho fermentado ( parece nosso cauim ) e
com resina de árvores. Outra bebida usada é uma versão “Maia” do
hidromel: fermentado de água e mel.

Infelizmente não tinha
nenhum ritual religioso rolando ontem, então não tomamos nada de álcool:
só as bebidas sem álcool, também bastante típicas: chaya com abacaxi ( é
uma folhagem que eles comem como espinafre ) e oposole de milho branco (
uma bebida feita com pasta de milho branco cozida, que se mistura com
sal e chili habanero, ou então se adoça com mel ).  

Angel,
vestindo “orgulhosamente yucateco” na camiseta, e a mesa de quitutes
maias que eles nos prepararam, entre elas a farinha de semente de
Abobóra tostada com tortillas de milho branco, chili habanero ( adorei
essa gente que abusa da pimenta..) e naranja agria.  

Depois
de sair da casa de uns primos do nosso guia, fomos comer o que são os
papadzules, prato local bem tradicional, feito com farinha de semente de
Abobóra. Tortillas de semente de Abobóra cruas, recheio de ovo cozido,
molho de farinha de semente de Abobóra tostada, tomate e mais uma
farinhazinha salpicada por cima. Simplesmente fantástico.

Pra
beber, um oposole: bebida que de pasta de milho branco cozido, diluído
com água, que se pode beber “simples”, com sal e chili habanero, ou
então adoçado.

Tudo acompanhado ( sempre ) de tortillas de milho caseiras feitas em lenha. 

  

Suco de chaya com limão “país”, o equivalente a nosso limão caipira.

A Chaya é uma espécie nativa mexicana, parecida com a folha da
mandioca, mas que vira uma árvore grande. Seu gosto e textura parece um
espinafre – e não é a toa que se chama espinafre de árvore.

Bastante consumida por aqui, em sucos, molhos e diversas preparações,
tem também poder depurador e aparentemente ajuda na diabetes.

Curiosidade sobre o limão “país”: tem uma mandinga antiga popular pra
saber se as moças são virgens ou não ( ? ). Se atira um limão no chão,
enquanto a moça caminha. Depois de cortar o limão, se as sementes
estiverem rompidas , é porque a moça não é donzela…. Rss…. 

 

 

As
ruínas de Chichen Itza ficam numa região absurda para arqueologia.
Existem dezenas de sítios arqueológicos por aqui, por mais explorado aos
menos explorados. Existem algumas opções de hotéis na “região
hoteleira” e alguns outros mais simples nos povoados e na estrada (
ficamos em um na estrada, o Dolores Alba ).

O povoado mais
próximo é Piste. Aqui que nosso guiaquevirouamigo nos levou par provar
os papadzules ( tortillas recheadas de ovos, feitas de semente de
Abobóra ) e o opozole ( bebida de pasta de milho branco cozido ). 


…. é essa é a tal da chaya, que falei no post anterior …….
28/5/2016
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