Viagens, Vinhos

Criado Solto Sicília: Azienda Agrícola Lamoresca

Difícil ir pra Sicília e não pirar nas milhares de coisas que dá pra fazer por lá. Desde ruínas gregas à subir no vulcão, passando pelas cidades barrocas e pelas praias…. é meio frustrante pois é sempre muita opção pra pouco tempo.

Essa última viagem pra Sicília foi focada em visitar os produtores de vinho natural da ilha. Pra quem ainda não sabe o que é vinho natural, ou quais as diferenças entre os naturais e os convencionais, tem um monte de post falando sobre isso aqui no blog – só dar uma fuçada.

Mas então…  eu acordava na Sicília, aquele solzão de rachar mamona ( lá é de rachar figo ), dava aquela choramingada de tristeza por passar batido por um monte de coisa que eu também queria ver, mas também uma choramingada de alegria quando chegava nos produtores de vinho, um mais interessante do que o outro.

Esse aqui em cima é o  Filippo, da Azienda Lamoresca. Uma pessoa daquele grupo que você quer abraçar, não soltar mais e levar pra casa. Foi o primeiro vinhateiro que visitamos aqui na Sicília.

Dirigindo cerca de 3 horas a partir de Palermo, a gente chega em San Michelle di Ganzaria, povoado onde está a Azienda Lamoresca.

Filippo Rizzo começou o projeto nos anos 2000, quando ainda era chef é proprietário de restaurante na Bélgica. Foi lá, inclusive, que ele começou a entrar em contato com vinhos mais puros: “comecei a ver que todos os vinhos estavam ficando iguais…. mas apareciam alguns que era totalmente diferentes dos outros”. E foi nessa que ele conheceu Frank Cornelissen, por exemplo, entre outros vinhateiros. Então lá pelos 2000 ele voltou pra Sicília e começou um projeto de …. azeite. Pois é, a paixão dele é azeite, e não vinho. Mas o vinho se tornou sua atividade principal, ao longo dos anos, e hoje é o que dá sustento financeiro ao projeto todo. As primeiras vinificações foram junto com Cornelissen, e em 2010 ele começou a vinificar em sua própria adega.

Hoje Filippo faz cultivo orgânico e vinificação natural, às vezes com adição de so2, às vezes não, depende muito da safra. Ele cultiva as principais variedades sicilianas, como Nero D’ Avola, Frappatto, Nerello Mascalese… além de outras como Vermentino e Grenache. O nome da Azienda vem de uma variedade de azeitonas, chamada Moresca: o primeiro terreno que ele comprou tinha olivares centenários dessa variedade, que acabou batizando o projeto todo.


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Essa aqui é uva da variedade “Frapatto”, uma das autóctones da Sicília. Geralmente dá origem à vinhos mais leves e menos coloridos, delicados. Virou queridinha nos últimos tempos entre os aficcionados do vinho natural, justamente pela leveza, acidez e facilidade de beber. Na contramão da potência, da cor e da densidade de outra siciliana nata, a Nero D’Avola, por exemplo.

Pausa para uma reflexão interessante, aqui. Ultimamente, uma reclamação habitual dos vinhateiros ( mesmo os naturais mais radicais ) é que o movimento do vinho natural virou uma coisa tão de “moda”, “hipster”, “trendy”, etc., e que o estilão glouglou-acidezbombando-petnat-baixoalcool-esquisitão acabou se tornando também uma massificação, uma padronização e uma prisão de estilo nos vinhos naturais.

Tem Nero D’Avola que, fiel ao terroir, vai chegar aos seus 15% de álcool, com muita fruta madura, densidade, estrutura. Daí tem gente que acha que não é  “natural enought” e não coloca na carta de vinho, pois foge do estilo que se “convencionou” do que deve ser um vinho natural. Pois é. Até mesmo no mundo dos vinhos naturais a gente tem que ter muito cuidado com essas armadilhas. Eu mesma adoro um esquisitão refermentado na garrafa, mas não é por isso que a gente vai esquecer que toda a questão do vinho natural, muuuito além de um estilo de vinho, é uma questão agrícola, política e que preza principalmente pela saúde dos solos, pelo resgate de uma vida próxima à terra, por uma vida sem depender de insumos agrícolas e enológicos, pelo vinho com a mínima intervenção, pelo trato mais humano, pela autenticidade e liberdade do vinhateiro e do produto. E você não consegue ser livre ou autêntico ao se prender a um estilo único – afinal, vinho natural não é isso. Não se trata de moda ou de ficar bem na fita dos moderninhos. Quem acha que vinho natural é isso não está nem pesquisando nem bebendo direito. Então trate de se aprofundar mais e beber mais, pois o buraco é muito mais embaixo. Se é pra ficar na superfície, melhor nem começar a brincar.



Filippo faz vinhos com as uvas Frapatto, Nero D’Avola, Nerello Mascalese, Vermentino e Grenache. O Lamoresca Bianco, de Vermentino. O Lamoresca Rosso, Nero d’Avola, Frappato, Grenache – com maioria de Nero D’Avola. O Nerocapitano, com Frapatto ( Nerocapitano é o nome regional da Frapatto ) e o Mascalisi, com Nerello Mascalesi na maioria e Frapatto. Difícil dizer que gostei mais de um do que de outro, pois todos são muito diferentes entre si. Eu que sou fã dos brancos, obviamente tive uma queda pelo Vermentino, muito mais depois que ele nos abriu uma garrafa de 2009, de quando ele ainda fazia maceração com as cascas – o vinho estava jerezado, absolutamente incrível. O Frapatto, leve e gentil como sempre, delicinha. O Rosso, de maioria Nero D’Ávola, segundo ele é a mais fiel expressão da Sicília – e realmente, é uma potência. Dos tintos, talvez meu preferido tenha sido o Mascalesi – estruturado, muito pouco óbvio, encantador. Foi pra mala, lógico.

Aqui no Brasil que importa o Lamoresca é a importadora Wines4u.

4/9/2018
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