Top 5 Nacionais na Go Where: Orgulho Nacional 09/09
Por Celso Arnaldo Araujo
” ... Ontem, sangue de boi . Hoje, evocação de borgonhas. Foi notável o upgrade dos vinhos nacionais nos últimos 20 anos, com o progressivo melhoramento dos terroirs e da tecnologia de produção, sem falar na paixão e no saber dos novos enólogos. Alguns dos mais conhecidos enófilos da cidade, que têm acesso a virtualmente qualquer vinho do mundo, não escondem seu prazer ao beber um nacional top de linha , defendendo sua qualidae - contra um preconceito que inegavelmente ainda existe - com papila e dentes. Nesta edição de quinto aniversário de GWG, reunimos cinco desses enófilos “nacionalistas” para degustar às cegas 5 tintos premium da safra de 2004 - o ano em que a revista nasceu. O resultado? Mais um show da vinicultura brasileira .
Local: Enoteca e Bistrô Saint VinSaint, que é um achado em São Paulo, a partir do próprio nome - que vem de São Vicente, o padroeiro dos vinhateiros. Com uma equipe afinadíssima, comandada pela sommelier Lis Cereja, formada em Nutrição e Gastronomia, a casa, com sua chique decoração-colagem e um clima delicioso, convida não apenas à prova e à compra de vinhos - com uma seleção caprichadíssima de vinhos nacionais e importados exclusivos - mas à gastronomia, com a cozinha de bistrô produzida pela chef Luiza Hoffman, um talento da nova geração. É nesse ambiente acolhedor e altamente inebriante que nossos jurados começam a se instalar para a degustação. Não sem antes fazer sinceras declarações de amor ao vinho nacional da atualidade… ”
“No meu blog”, revela Didú Russo, um dos jornalistas de vinho mais respeitados da cidade, “relaciono 110 rótulos nacionais que eu serviria a qualquer connâisseur, com orgulho. E desafiando às cegas vinhos chilenos e argentinos top”. O lendário José Oswaldo do Amarante, diretor técnico da Mistral, acha o número um pouco exagerado. “Eu ficaria com uma boa vintena de grandes vinhos brasileiros”. José Luiz Pagliari, engenheiro químico, enófilo e consultor, membro da SBAV e da ABS, também põe fé no atual estágio dos bons vinhos nacionais. “Quem mora em São Paulo e ainda torce o nariz para o vinho brasileiro não tem ideia da dedicação e do empenho dos produtores do sul. Se provar o vinho no local, vai mudar radicalmente de opinião”. Sérgio Inglez de Souza, enófilo, sommelier e atual presidente da SBAV, concorda: “Acompanho e defendo os bons vinhos nacionais. A evolução nos últimos 10 anos foi enorme”. Claro que o vinho brasileiro tem vocações específicas - nossos espumantes são indisputáveis. E, em matéria de uvas, a merlot tem a preferência, mas há quem já prefira uvas menos comuns, como cabernet franc e touriga nacional. O analista sensorial Renato Frascino ressalta que os filhos dos antigos produtores do sul foram estudar fora e trouxeram knowhow para promover essa revolução. “E a natureza nos abençoou com um clima privilegiado naquela região”.

(Os cinco jurados de GWG - Sergio Inglez de Souza, Renato Frascino, José Amarante, José Luiz Pagliari e Didú Russo - com Lis Cereja, proprietária e sommelier da Enoteca Saint VinSaint)
Começam os trabalhos
Chega o número 1 dos cinco vinhos da tarde. Os jurados , por unanimidade , preferiram bebê-los às cegas , par a aumentar a emoção e os enigmas do vinho nacional. Frascino já lhe nota a cor, um vermelho vivo. “O vinho nacional não tinha essa cor, parecia aguado”. Didú Russo leva-o ao nariz e comenta : “Gosto da personalidade aromática. Lembr a óleo de casca de mexirica . Mas gostaria de bebê-lo daqui a 10 anos”. Frascino nota-lhe agora, na boca, ácidos equilibrados e um tanino não-agressivo. Amarante aprecia seu aroma complexo, a boca equilibrada e um final de boca igualmente harmonioso. Lis Cereza gosta de sua autenticidade: “Não é exagerado. Não tenta imitar chilenos ou argentinos”. Aliás, os enófilos destacam que, embora mais perto dos terroirs de outros países sul-americanos, os terroirs gaúchos e catarinenses, seguindo sua vocação, dão origem a vinhos mai s para Velho Mundo - não vinhos densos, com muita madeira e potência daqueles países. Amarante comenta que é o público que pede vinhos mais potentes. Didú Russo comenta: “É um engano buscar o antigo padrão do Chile, que a esta altura já se inspira nos Bordeaux. Sergio Inglez de Souza também ressalta no vinho número 1 a boca redonda de fruta madura. Pagliari não vê complexidade no aroma mas, na boca, uma certa estrutura, “para acompanhar comida trivial, talvez uma carne assada de panela”.
Prossegue o espetáculo
O número 2 provoca menos entusiasmo desde o primeiro nariz. Amarante: “O aroma é até interessante, mas está desbalanceado na boca, paladar muito magro e curto”. Frascino concorda: “As papilas reclamam de desarmonia”. Sergio Inglez: “Paladar menos evoluído, nariz unidirecional”. Lis vê outro problema: “A acidez elevada causa estranheza. E o final da boca é muito curto”. José Luis aprecia-lhe o aroma, “ervas e especiarias”, mas “a acidez, de fato, chama muito a atenção”. O vinho número 3 já chega à mesa destacando- se pela cor viva, “um cassis maduro” - nota Frascino. No paladar, segundo ele, “o álcool parece bem interligado com a acidez”. Didú o aplaude: “Nariz mineral bárbaro, belo vinho”. Amarante resume sua avaliação: “Sabor bem equilibrado. Gosto”. Já Pagliari acha que é mais um vinho “tecnologicamente trabalhado na vinícola. Tem madeira no nariz, mas peca na boca. Não tem agressividade”. Sérgio Inglês reforça o conceito de bom nariz: “Ervas, chocolate, madeira, acidez correta. Um final de boca tranquilo”. Didú Russo considera-o “tecnicamente melhor”, mas o número 1 é mais de seu agrado pessoal. Lis não vê no número 3 uma personalidade de destaque. “Não tem tipicidade. Busca o gosto universal, não o terroir brasileiro”
Hora de servir o vinho número 4 - o penúltimo de nossa degustação. Didú Russo nota no aroma arruda, muita erva. E o paladar tem intensa personalidade. “Gostei demais”. Amarante concorda: “Ótima acidez, equilibradíssimo”. Frascino destaca sua “explosão de aromas conjugados, primários de frutas e terciário de madeira”. Didú Russo usa uma imagem bastante sugestiva para descrever sua autenticidade: “É um vinho que não muda a voz ao atender o telefone…”. Sérgio destaca seu nariz complexo, com ferros, especiarias e “caixa de charuto”, e um paladar que preenche a boca. José Luiz Pagliari ressalta a “vocação gastronômica” desse exemplar. E Amarante volta a destacar o papel da acidez num bom vinho: “É a acidez que limpa o paladar para o próximo gole”.
Enfim, o número 5. Amarante nota-lhe a bela cor e volta a comentar essa nova característica dos vinhos nacionais: “Antigamente, não tinha essa cor, que exige mais concentração. Os novos enólogos aprenderam a extrair o máximo de suas uvas”. Sérgio Inglez destaca o nariz frutado, a boca agradável que mantém o frutado e taninos redondos. “Fácil de tomar”. Didú ressalta no aroma um toque de melaço de cana e raspa de tacho, com boca equilibrada. “Um vinho muito bem trabalhado”. Amarante também curte: “Cada gole dá vontade de beber mais”. José Luiz diz que é um vinho moderno, com vinificação de primeira, com toque de enólogo e muita personalidade.
AS BELAS DO VINSAINT
Lis Cereja, sócia e sommelier, e Luiza Hoffman, a chef de 24 anos que comanda a cozinha do bistrô da Enoteca Saint VinSaint, formam a mais bela dupla enogastronômica da cidade. Elas são a cara do lugar - um point agradabilíssimo, misto de importadora, empório, bistrô, wine bar e casa de cursos e pocket shows de dança e música, tudo regado aos melhores vinhos, com uma equipe jovem e diplomada. Vale a visita.
Rua Professor Atílio Innocenti, 811/Tel.: 3846 0384
