Viagens Enogastronômicas: Degustando Chianti
Sejamos francos: nós, brasileiros, temos certa história com os Chiantis. Não uma história que faça juz à qualidade dos vinhos, claro. Quando lembramos de Chiantis nos lembramos provavelmente das cantinas italianas e das garrafinhas bojudas que enfeitam os tetos das mesmas. Não é difícil se surpreender coma variedade e extrema qualidade dos vinhos quando se está in loco.
Comecemos com uma explicação básica:
Chianti é com certeza o mais famoso de todos os vinhos italianos, e é produzido na região central da Itália, Toscana, pertinho de Florença e Siena ( espetáculos visuais e históricos….). Os vinhedos de Chianti estão espalhados por toda a região, sendo que em 1932 foram definidas por lei sete zonas produtoras : Chianti Clássico, Colli Aretini, Colli Fiorentini, Colli Senesi, Colline Pisane, Montalbano e Rufina. Mesmo com a introdução das normas de DOC ( Denominazione di Origine Controlata) e DOCG (Denominazione di Origine Controlata e Garantita), estas subdivisões permaneceram inalteradas. A região de Chianti Clássico é a original (apenas foi um pouco aumentada), ficando situada na região montanhosa entre Florença e Sienna, produzindo os melhores vinhos de Chianti. Dos subdistritos, Rufina e Colli Fiorentini podem produzir vinhos no estilo dos Chianti Clássico. Os demais produzem vinhos mais leves, para consumo imediato e descompromissado.
A uva Sangiovese é de longe a varietal mais importante na região de Chianti, sendo encontrada na sua forma Sangivese Piccolo. Aliás, o que existe de clones da uva Sangiovese é algo que não se escreve. Recentemente, descobri que existem clones da Sangiovese até na Córsega, sob a forma de um primo distante chamado Nieluccio. Na sua melhor expressão, a Sangiovese produz vinhos de corpo médio a encorpado, secos, levemente picantes, bastante ácidos, com aromas e sabores de cerejas adocicadas e com leve toque amargo, especiarias e ervas. Uma delícia, em suma.
Tive a oportunidade de visitar um produtor bem interessantes de Chianti, localizado ali mesmo no coração da região, em Gaioli: Castello di San Sano. Uma peculiaridade é que este produtor, assim como muitos da região, estão pouco a pouco convertendo seus vinhedos para a agricultura biológica. É um processo lento e caro, mas que na opinião da maior parte dos empresários e viticultores, vale a pena. Uvas mais fortes e mais saudáveis dão vinhos mais complexos, equilibrados e característicos.
San Sano foi citada como uma das melhores regiões para produção de vinho deste 1773, no tratado de enologia toscana. É uma das outras micro cidadelas com algumas dezenas de famílias, com exatamente um restaurante aberto e uma loja de vinhos em funcionamento ( sinceramente, uma cidadezinha histórica de paisagem maravilhosa, no meio da Toscana, com um bom restaurante de pasta e carnes de caça, e loja de vinhos com diversos Chiantis e Supertoscanos… quem precisa de mais ?? Logo ao lado, na foto, sou eu, encantada com os vinhos e as pastas secas à venda…). Uma curiosidade: o símbolo da cidadezinha é uma rã que bebe vinho… e um dos vinhos que provei, da Castello di San Sano, se chama ” “Vigneto della Rana"um Chianti DOCG muito agradável, fácil de beber e com custo benefício excelente. Pontuações à parte, teve 89 pts Parker.
Além deste, provei os maravilhosos “Guarnellotto Chianti Classico Riserva” e “Borro al Fumo”, sendo o primeiro um estupendo Chianti Single Vineyard e o outro um supertoscano de bastante respeito. Claro que os vinhos ganharam pontos servidos num jantar com os proprietários da vinícola e alguns embutidos e javalis para harmonizar….