Viagens

Criado Solto: Dona Marta, Serra dos Noronhas, Itanhandú, Minas Gerais.

Sempre que a gente fala em organismo agrícola sustentável a gente imagina uma comunidade meio riponga, meio hipster, com aquele ar meio californiano, onde o ciclo se fecha dentro da própria comunidade. Lixo, reaproveitamento, orgânico, compostagem, reciclagem, manejo ecológico, cuidado com o solo, resgate de sementes nativas, resgate de tradições agrícolas e alimentares, blá-blá-blá. O que a gente se esquece é que propriedades pequenas autossustentáveis não são coisa moderninha. Na verdade é o que há de mais antigo e tradicional em termos de configuração social/agrária/economia/cultural. E não é exclusividade das Oropa, com suas famílias e vilas tradicionais, a galera que faz seu vinho, seu queijo, seu trigo, seu pão, seus curados. Aqui no Brasil temos uma figura na história que, embora alçada ao esteriótipo superficial do chucro, é a figura chave de uma vida muito próxima ao que chamamos de uma vida natural, de uma verdadeira conexão com a terra, a localidade, a cultura, tradições, natureza… uma vida verdadeiramente sustentável. Essa figura é a figura do caipira. É. Do caipira. Foi esse um dos pontos que mais conversamos aqui nesses últimos dias, com o Rafa, entre visitas à famílias da região e uma cachacinha e outra ( elemento também essencialmente caipira ). Não entendeu o que o Jeca Tatú e o Chico Bento tem a ver com sustentabilidade? Espera que nos próximos posts vai rolar textão. E tudo começa com a visita que a gente fez a Serra dos Noronha, lá perto de Passa Quatro. 

Assim que chegamos em Passa Quatro, o Rafa e o Joãozinho disseram que não poderíamos deixar de conhecer a Serra dos Noronhas. Se chama assim por conta da família Noronha, que mora lá no topo da serra. Subimos a Serra pra conhecer a Dona Marta, na caminhonete do Joãozinho. Só o caminho até lá já teria valido a pena: a Serra e os arredores são lindos ( a cervejinha artesanal tomada no bico até lá em cima também ajudou no Pantone da paisagem ). Só que chegando lá, foi algo de cair o queixo. Sabe quela coisa do organismo agrícola autossustentável? Pois é, ali, na sua frente. Dona Marta é de família que sempre cultivou a terra, e sempre morou ali na serra. Planta o que come, torra seu café, faz fubá e farinha dos seus milhos – que viram bolinhos, bolos, biscoitos, cria seus porcos de raça antiga – que viram carne de lata, o “confit” caipira, e muita banha pra usar o ano inteiro. Os porcos criados de maneira tradicional geralmente são engordados pra ter muita gordura, justamente pois o método de conservação – sem energia elétrica – era a carne de lata, como se fosse mesmo um confitado do porco na própria banha. E claro, a banha de porco caipira sempre foi o a principal gordura utilizada na cozinha. Planta tudo de maneira orgânica ( mais que orgânica, caipira ), vende o excedente nas feiras regionais e com isso consegue uma vida pra lá digna. Come bem, tem qualidade de vida, mora no meio do mato, tem carrinho novo na garagem e está indo atrás até de certificação orgânica. Só que continua fazendo o que gerações e gerações de famílias fizeram antes dela: vive da terra de maneira quase simbiótica, utilizando os recursos sem degradar, reutilizando, respeitando, sem a preocupação do consumo urbano. Do milho que ela debulha, até o sabugo é usado no fogão à lenha, que depois gera cinzas para a horta. E como bem pontuou o Rafa, o gestual define as pessoas às vezes sem precisar dizer muito: antes de colocar o sabugo o fogo, Dona Marta olhou, viu que tinham três grãos de milho ainda presos, e em vez de jogá-los ao fogo, tirou um por um, foi lá fora, e deu pras galinhas comerem.  

Dona Marta trabalhava quando criança na plantação de tabaco, que é altamente tóxica e demanda trabalho pesado. Desde sempre cultivou o pomar, os milhos, criou os animais, coletou o café. Sua mãe plantava milho branco. Com o passar do tempo, foi pegando um ranço profundo pelo tabaco e se depender dela, nunca mais trabalha com isso. Hoje ela cultiva as verduras, frutas, legumes, cria os bichos, planta seu milho e coleta o café. O milho é um capítulo à parte: um dia ele “nasceu” rosa. Não era mais a variedade branca que a mãe plantava, tinha virado uma outra coisa. Bom, pra quem não sabe, é assim mesmo: o milho poliniza pelo vento, e cruza entre um e outro que é uma beleza. Um dos grandes problemas do milho também é esse, inclusive. Pois as sementes transcendias acabam invadindo plantações crioulas por essa peculiaridade, dele polinizar pelo vento e fazer cruzamentos expontâneos. Daí é só ter milho transgênico perto que ele acaba com as produções crioulas, pois tem genética mais forte e dominante. Mas voltando. No mundo “natural” essas mutações expontâneas são normais. 

Resultado, Dona Marta acabou com uma variedade de milho lá só dela. O que acontece na maior parte das famílias, tem milhos meio que só deles. E muitas comunidades acabam levando essas linhagens de milho tradicionalmente geração após geração. Segundo Dona Marta, mais que cruzamento, isso foi “obra de deus”. E eu concordo. É só ver o milho pra concordar com ela. Coisa mais linda do mundo, crioulinho dos bons, colorido, cheio de vida., brilhoso, alegre. Sustentável de forma natural, como bom caipira tradicional, envolvido com o equilíbrio da terra e do modo de vier, com a palha dos milhos ela faz cestas e artesanato. Os sabugos ela usa no fogão à lenha, e os grãos, ela usa pra comer, pra fazer fubá e farinha. Com ela, faz bolinhos de fubá fritos na banha de porco, bolo de fubá, biscoitos. O café da tarde que ela nos serviu foi um banquete no melhor estilo que hoje a gente chama de “farm to table”, mas fartotable de verdade meeeesmo, sem enganação de cidade grande, que planta salsinha convencional num box do restaurante, serve salmão chileno, filet mignon e fala que faz farm to table. O café, eles coletam na serra, secam, pilam, torram e passam. Os pés de café sempre estiveram ali. Eles não sabem as variedades, tem um amarelo e tem um vermelho. Provavelmente estavam ali desde a época áurea dos cafezais na região, e alguém plantou para subsistência. Ou não, acabaram nascendo lá trazidos de alguma maneira. Vai ver que também foi Deus, não duvidaria.  O suco de laranja champagne, uma variedade grandona, ácida, que fermentado deve dar um pãtza espumante de fruta, é das laranjas que ela planta lá. Óbvio. Bolo de fubá, ela faz desde sempre com o fubá de seus milhos, e é comida de dia a dia de quem trabalha na roça – com muito açúcar, também desde sempre, afinal, é uma fonte de energia imediato pra quem trabalha a lida do campo, e não podemos esquecer que fomos uma colônia açucareira, o que moldou nosso gosto pelo ingrediente – e pelo eacessodele – de maneira definitiva. Bolinho de fubá com queijo – de queijo feito lá, claro, cru, claro, com leite da vaca deles… claro – e frito na banha de porco – do porco caipira que eles criam lá, alimentado à base de milho crioulo. 

16/7/2018
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