Divagações, Viagens

Criado Solto: sementes crioulas.

 

Pipoca de milho crioulo que trouxe lá da Dona Marta, em Minas, pertinho de Passa Quatro. É esse milho pretinho pequeno, de herança indígena, de grão minúsculo, parece uma pedrinha preciosa. Milho crioulo? É, a gente usa esse termo pra falar de grãos ou coisas “locais”, tradicionais, sementes que não sofreram modificação genética ou transgênia, parte da herança cultural de um país, povo ou região. O problema da preservação de sementes é mundial. Brasil idem. Se a gente imaginar a diversidade de plantas que existem e a quantidade de coisas que cultivamos, veremos que cada vez mais cultivamos MAIS de MENOS. Vivemos num mundo onde a monocultura, o fertilizante sintético e o agrotóxico dominaram as paisagens agrícolas, matando a estrutura tradicional de policultura – cultivo integrado de diversos alimentos, plantas e bichos, em pequenas propriedades. Ou seja, temos hoje maior quantidade de menos variedades: a industrialização nos impele cada vez mais para esse caminho: mais produção de menos coisas. O milho é um caso clássico. Países “milheiros”, como nós da América, sentem cada vez mais a extinção de espécies nativas para um mundo de um milho só. Temos um arco iris de milhos brasileiros, mas muita gente acha que milho é só amarelo, ou então, que Brasil não é país de milho, só de mandioca. O Carlos Alberto Dória tem textos ótimos falando sobre isso, vale a pena se aprofundar. Claro que, falando especificamente do milho, a questão é bem ampla: seleção genética sempre foi feita, até pelos povos pré colônia: variedades mais fáceis, mais produtivas, mais bonitas, sempre foram escolhidas pelos agricultores, mesmo que involuntariamente. Se você escolhe meia dúzia de espigas mais bonitas para plantar na próxima safra, viola, você já está fazendo uma seleção dentro da espécie. Claro que, em proporções industriais, essa escolha em pequena escala vai tomando outras searas, e não só modificando totalmente as espécies “mãe”, como vai afunilando o leque de variedades plantadas.

Pois se no mundo industrial temos o “melhor”, o “pior”, o “produtivo”, o “não produtivo”, uma hora ou outra acabamos com uma gama de sementes bombadas selecionadas apenas para serem mais “úteis” para o homem e para a máquina da indústria alimentícia. Com o agronegócio, a falta de incentivo do resgate e da manutenção das tradições alimentares, com a pressão das grandes empresas no campo, os grandes negociantes de sementes, transgenia e  monoculturas, o quadro radicalmente piora: pessoas que antes cultivavam espécies nativas vão pouco a pouco passando para o “maravilhoso” mundo do cultivo de milho comum ou milho transgênico, que tem já no pacote a alta produtividade e a resistência aos pesticidas – vendidos pelas mesmas empresas das sementes, claro. Assim já lucram duas vezes num mesmo lugar. Agora, não bastasse isso, o problema de algumas espécies, como o milho, é que elas “cruzam” por polinização, pelo ar. E pólen pode viajar no vento através de quilômetros. Resultados? Contaminação de espécies nativas por pólen transgênico, que é super agressivo e dominante: os milhos nativos vão, pouco a pouco, se “transformando” em outra coisa, assimilando a transgenia. Osso duro de roer. O milho cruza com outras variedades que não transgênicas, claro, naturalmente. Mas com a quantidade esmagadora de milho amarelo transgênico por aí, ele acaba com certeza sendo o mais perigoso para os milhos nativos. Hoje em dia os agricultores que preservam suas sementes crioulas tem que tomar cuidado de trocá-las apenas com outras que venham de culturas não contaminadas, e procuram plantar em épocas diferentes da maioria para não haver cruzamento por pólen contaminado….  e por aí vai. Um rebolation só. Tirando toda a polêmica  questão da transgenia, que nesse caso é um rolo compressor que passa em cima das espécies nativas, existe a questão da perda da cultura e tradição alimentar ao longo de gerações, pois elas  vão “afunilando” seu leque de espécies plantadas e também de espécies consumidas. 

É sabido que comemos hoje apenas 2% de todas as espécies comestíveis no mundo – isso, devido em grande parte à industrialização alimentar, que estreitou nossa visão sobre o que comer e sobre o que não comer, além de ter feito uma pãtza lavagem cerebral em todo mundo, que acredita que tudo o que se pode comer você encontra no supermercado. Ledo engano. O planeta não é feito só de alface americana, milho amarelo e cenoura laranja. Espécies selecionadas para serem maiores, de uma cor só, bonitas, produtivas e muitas vezes menos nutritivas vão decorando nosso triste prato de comida, enquanto engolimos submissamente tudo o que o sistema industrial de alimentação nos impões goela abaixo. 

17/7/2018
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