Vinhos

Os vinhos biodinâmicos

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Modinha do momento? Bom, não é bem assim. A agricultura biodinâmica já é uma respeitável senhora no alto dos seus 90 anos.

Resumindo toscamente, é uma agricultura orgânica mas com vários métodos que são específicos da agricultura biodinâmico – com o enfoque da antroposofia, baseada nas aplicações desta na agricultura, que tem como grande nome Rudolf Joseph Lorenz Steiner. Ou Rudolf Steiner, como todos o conhecemos.

O início do movimento biodinâmico aconteceu em 1924, durante um ciclo de oito palestras para agricultores, ministradas pelo próprio Steiner no Congresso de Pentecostes. Muito da filosofia de Steiner veio de seus estudos das obras de Goethe – principalmente seu modo de olhar para a natureza. Os estudos sobre agricultura de Steiner não são específicos para a viticultura, mas sim, para a agricultura no geral. O termo biodinâmica vem, no alemão, de agricultura “biológica e dinâmica”. Dinâmica, no sentido de “força”.

Cerca de 2% dos produtores orgânicos, no mundo, são biodinâmicos. Sim, se agricultura biodinâmica é algo antigo, a aplicação nos vinhedos não e tão antiga assim.

Na década de 80 que começaram a pipocar com mais expressão, nas mãos de nomes como Nicolas Joly, do Loire, considerados por muitos até hoje um dos papas do vinho bidinâmico; Eugene Meyer, Pierre Frick na Alsácia; Jean-Claude-Rateau na Borgonha, assim como Thierry Guyot, e muitos outros ao redor do mundo.

Ué, mas como assim? Orgânico e biodinâmico não são diferentes? Sim e não. Ou seja, você pode ser biodinâmico se for orgânico ( é só aplicar as práticas biodinâmicas no seu plantio orgânico ), mas a premissa ao contrário não é verdadeira: não é porque você é orgânico que vai ser necessariamente biodinâmico, mas sendo biodinâmico você é necessariamente orgânico. Entendeu? Não? Bom, você não seria o único. O biodinamismo é meio difícil de entender mesmo – até os próprios produtores falam isso. E é por isso que precisa de muito estudo e muito conhecimento de causa. De qualquer maneira, para você ser certificado biodinâmico, por exemplo, é necessário a certificação orgânica.

Bom, mas muito mais que só um cultivo orgânico livre de substâncias sintéticas e etc. ( onde não se utiliza produtos sintéticos, fertilizantes químicos, hormônios de crescimento, transgênicos ). É um sistema que acredita na unidade agrícola como um todo, como se a propriedade em si fosse um ser vivo, e precisasse estar equilibrada entre todas as suas partes para poder funcionar bem.

O biodinamismo procura trazer de volta o equilíbrio ao ambiente: a força, a vitalidade, a fertilidade, a perfeita integração dos reinos vegetal, animal e mineral. Para isso, um calendário de plantio, poda, colheita é seguido, de acordo com o calendário lunar – e diversos preparados e compostos vegetais e animais são feitos para restabelecer o solo e cuidar das videiras – para que elas se tornem fortes o suficiente para suportar doenças e pragas sozinhas. Como alguém que cuida da alimentação e da saúde, e que automaticamente se torna mais resistente às doenças.

Não, não tem nada a ver com seita e nem com bruxos voando no vinhedo.

Embora, confesso, existam algumas práticas que poderiam causar certas “dúvidas” aos olhos menos treinados e mais céticos. Mas quando a gente se aprofunda mais, vê que até o que parecia a maior doidice tem seu fundamento e acaba dando certo. O problema é que é uma aplicação de conhecimentos tão extensos e tão profundos que é fácil sair por aí sem entender e falando besteira. O próprio Steiner quando apresentou alguns de seus métodos, disse que “para o jeito moderno de se ver as coisas hoje em dia, isso pode parecer tremendamente insano”. Bom, e isso era lá na década de 20. Imaginem hoje. Parte da chacota dos produtores que não são biodinamicos vem do fato que, muita coisa, até hoje, não foi explicada cientificamente. E a gente vive a era do “tem que ser explicado cientificamente”, portanto…. muita coisa acaba virando piada, e até mesmo alguns vinhateiros dizem que não acreditavam nas práticas até verem com os próprios olhos a melhoria do solo, das plantas, da qualidade das uvas…e obviamente, do vinho. Muitos vinhateiros optaram por converter seus vinhedos depois de testes à cegas de um mesmo vinho – feito com uvas de manejo orgânico e outro feito com manejo biodinâmico.

Já na época de Steiner, o objetivo era recuperar a saúde dos solos, já degradados pelo abuso do fertilizante sintético – sim, imaginem hoje, novamente. Para isso, foram feitos alguns métodos de recuperação dos solos. A saúde do solo, para o biodinamismo, é crucial. Naquela época, ele tinha medo de que o abuso de fertilizante “morto”, ou seja, sintético – não proveniente de coisas vivas, como animais ou vegetais – pudesse, um dia, causar o empobrecimento extremo do solo. Pois é, Steiner, acertou na mosca.

Solo vivo? Sim, literalmente. Cerca de 80% da vida na Terra está abaixo do solo, sendo que a população de minhocas é praticamente igual à todos os animais somados no mundo. Num terroir saudável, existem cerca de 4 toneladas de vida animal, em especial insetos, por hectare.

Um solo saudável, equilibrado e aerado é importante para o desenvolvimento das raízes da videira, fator importantíssimo para uma uva e um vinho de qualidade. Quanto melhor o solo e mais profundas as raízes, maior a captação de nutrientes a videira vai ter, e ela vai ter menos risco de desenvolver doenças, sofrer com stress hídrico ou ter deficiências nutricionais. Quanto mais aerado o solo, maior a drenagem da água – e um solo aerado se dá, muitas vezes, pela vida existente nele – como por exemplo as minhocas, que evitam a compactação do solo. No vinho, por exemplo, um solo rico em minerais e equilibrado vai fazer toda a diferença no sabor: embora os sabores dos vinhos não sejam simplesmente “tem ferro no terroir, tem ferro no gosto do vinho”, esses elementos minerais são indispensáveis para que se formem certos sabores no vinho. E quanto mais, maior complexidade.

Os grandes nomes desse tipo de agricultura são pessoas extremamente estudiosas e com um conhecimento absurdo, principalmente no que chamamos de conhecimento tradicional ou ancestral: o ciclo das coisas, o entendimento da natureza e da própria vida. O que a lua tem a ver com tudo, se um dia é melhor para se plantar ou não, para colher…. esse tipo de coisa. Que nem aquele caiçara que olha pro céu azulzinho e sabe que vai chover, e você fica com aquela cara de “ahnrã, vai sim”… e duas horas depois o tempo muda e você está lá na praia correndo da chuva. Isso é parte de um conhecimento da natureza que muita gente já perdeu – até mesmo pela falta de proximidade com ela. Além desse tipo de coisa, existem mais um trilhão de conhecimentos em termos de plantas, remédios para pragas, melhorias da fertilidade do solo, propriedades das plantas, ciclo lunar, fisiologia das espécies e etc. O “feeling”, ou seja, aquela percepção das coisas, que vem do conhecimento, observação e, por que não, intuição – é essencial para manejos assim. Não adianta você não ser biodinâmico se você quer que seu vinhedo seja. Obviamente, no começo, você vai acabar seguindo as instruções à risca, como se fossem receitas de bolo – depois, conforme for estudando, observando a natureza e tendo maior conhecimento sobre o assunto, vai pouco a pouco fazendo as coisas por conta própria, experimentando, tomando maior liberdade criativa.

Por outro lado, o biodinamismo não é somente intuição ou conhecimento ancestral. Nomes importantes na recuperação e entendimento do que passa abaixo dos nossos pés são, por exemplo Claude e Lydia Bourguignon, microbiologistas especializados em solo. Sua pesquisa ajudou e ajuda até hoje a elucidar questões de recuperação microbiológica e também de “aptidões” de determinado solo para algum plantio, por exemplo. São queridinhos de muitos vinhateiros e seu laboratório de análise de solo, o LAMS, ajuda com conhecimento científico de ponta as pessoas que estão interessadas em avaliar e recuperar seu solo.

Além de tudo isso, o biodinamismo busca a integração e o equilíbrio dos reinos vegetal, animal, mineral – e harmonia entre as várias atividades de uma propriedade como a horta, pomar, cereais, criação animal e florestas nativas , além de usar usa preparados homeopáticos feitos de minerais, esterco bovino e plantas medicinais.

Dentro dessa idéia de equilíbrio, até as doenças são vistas como parte do ambiente natural. Se uma vinha adoece, é sinal que algum desequilíbrio aconteceu naquele lugar. Que nem a gente, A gente normalmente adoece por que come mal, por que se estressa, etc.

Assim como na agricultura orgânica, se busca alternativas para a aplicação de produtos sintéticos. Procura-se um ambiente mais natural possível para as plantas, procura-se dar condições para que elas alcancem por si próprias o seu equilíbrio natural, é respeitada a individualidade de cada vinhedo e de cada variedade, sem forçar ou estressar as videiras. Aeração da terra, manutenção da biodiversidade do solo – acima e abaixo dele – manutenção de um meio ambiente saudável e equilibrado. Plantio de variedades fixadoras de nitrogênio, como as leguminosas, são manejo corrente para estimular a fertilização natural do solo, por exemplo. Utilização de cobertura verse – plantas semeadas entre as linhas do vinhedo – que serão utilizadas depois como adubo vegetal, idem. Preparados de plantas para combater pestes, estimular o fortalecimento das plantas, assim como compostos feitos de esterco animal e partes vegetais são usados no solo.

Os preparados biodinâmicos:

Muita gente torce o nariz, mas o fato é que a agricultura biodinâmico é extremamente efetiva e deixa os solos mais saudáveis e equilibrados. Os preparados podem nos parecer um pouco estranhos, e muita gente acaba aplicando mesmo sem saber “exatamente por que funciona, mas funciona”.

Eles foram desenvolvidos por Rudolf Steiner, também com base no conceito antroposófico. Steiner afirma que “adubar consiste em vivificar a Terra” . Com base nisso, elaborou alguns preparados. Estes podem ser divididos em dois grupos; os que são pulverizados no solo e nas plantas, e os que são inoculados em composto ou outras formas de adubos orgânicos como biofertilizantes e chorumes.

Se você já ouviu alguma conversa sobre agricultura biodinâmica, chega certo ponto que aparecem uns números. O que para os leigos pode parecer código de guerra ou de portaria de prédio: compostos 501, 500, 507. Mas calma lá, não é tão misterioso assim. São só números dados aos preparados, até para facilitar a comunicação internacional. Corre a lenda que isso veio da época nazista, quando era proibido o manejo biodinâmico – portanto as pessoas usavam códigos para se referir aos preparados.

Eles tem números de 500 a 508, e são considerados como “remédios homeopáticos” para as plantas, embora não tenham nada a ver com a homeopatia em si. Se diz isso por causa das substâncias naturais utilizadas, dos processos de dinamização e por serem utilizados em quantidades mínimas. São elaborados a partir de plantas medicinais, esterco e silício (quartzo), que são envoltos em órgãos animais como chifres, intestinos, crânio ( os mais comuns sao os chifres ) e enterrados no solo por seis meses a um ano e durante esse tempo, submetidos às influências da Terra e de seus ritmos anuais.

Esse negócio de enterrar chifre de vaca pode despertar certas reações estranhas nas pessoas. Mas que funciona, funciona. Já fizeram vários testes enterrando o esterco sozinho, enterrando o esterco em outros recipientes….. e o esterco enterrado no chifre de vaca é invariavelmente diferente e melhor para a utilização no vinhedo. Obviamente que os estudo de biodinamica explicam o p’rque por A+B. Mas acho mais interessante, em vez que explicar aqui, fazer com que vocês pesquisem por conta própria.

Seguem alguns dos preparados mais conhecidos, para que na próxima conversa sobre biodinamismo vocês não fiquem tão perdidos:

Preparado Chifre-esterco (500)
O tal do chifre de vaca enterrado.

Se pega esterco bovino – de preferência de vacas, e que já tenham tido bezerros, pois assim já completaram seu ciclo natural – e, literalmente, se recheiam chifres de vaca com eles. São feitos no Outono e são enterrados no inverno, passando seis meses debaixo do solo. Cada chifre tem que estar em contato com a terra. Depois, esse esterco, que se transforma e se torna muito mais potente e ativo, é diluído em água, dinamizado e aspergido no solo, cerca e 200g por hectare ( por isso que muita gente associa com a homeopatia, por causa da extrema diluição dos compostos ). Ele é usado para estimular o solo e as raízes das plantas: proporciona maior atividade biológica e vitalidade , favorece o desenvolvimento vegetativo da planta e as relações de simbiose das raízes e os microorganismos do solo.
Preparado Chifre-sílica (501)
Outro preparado onde se enterra o chifre da vaca. Mas esses são enterrados na primavera e ficam enterrados durante todo o verão. Este é o chamado “preparado da Luz”, feito com sílica – quarto – triturado, depois enterrado em chifres de vaca – e quando pronto, aplicado nas plantas, intensificando a atuação da luz solar: ele conduz eletricidade e luz, ajudando os processos de fotossíntese. É importante para a estruturação interna das plantas, desenvolvimento e qualidade nutritiva das plantas- que as deixam mais resistentes à doenças. São usados cerca de 4g por hectare desse preparado. Bem pouco, mas muito eficiente, ótimo para a fase de brotação.

Preparado de Cavalinha (508)
A cavalinha é uma planta muito conhecida pelas propriedades medicinais, principalmente fungicidas, por conter enxofre. Ela tem também muita sílica, e por causa disso auxilia as plantas da mesma maneira que o quartzo. Assim como o 501, dá uma secada na umidade do vinhedo, o que pode ser bastante vantajoso em locais mais úmidos.

Os três preparados acima tem que ser dinamizados antes de serem aplicados nos vinhedos. Tá.

Mas o que é dinamização?

Da mesma maneira que os remédios homeopáticos, os preparados são diluídos e “dinamizados”. Os agricultores biodinâmico acreditam que a água tem memória – e os propriedades e o poder do preparado biodinâmico vão passar para a água ( lembre-se que eles estão diluídos ), que vai ser aplicada nos vinhedos. Geralmente se dinamizam os preparados em algum recipiente cilíndrico ( uma barrica aberta, por exemplo ) e se agita a água de um lado ( para criar um “vórtex” ) e depois rapidamente para o outro lado ( que cria o “’caos” ). Segundo os biodinamicos, esses dois estágios são importantes para a dinamização dos preparados e para sua eficiência. Essa dinamização pode ser feita manualmente ou mecanicamente – e há também um tipo de cascada em escadinha, para as dinamizações, com cubas duplamente ovaladas, onde água vai caindo e formando os vórtex, chamado de “Flowform”.
Os compostos:
Servem para restaurar a vitalidade e a saúde do solo, de maneira a transforma-lo em um solo vivo e equilibrado; ponto crucial na agricultura biodinâmica. Muitos dizem inclusive que a biodinâmico é uma agricultura de solo: pois é uma das grandes preocupações. Os compostos são feitos com adubo, animal e vegetal. Esterco de vaca, de ovelha – provenientes de preferência de dentro da propriedade agrícola, pois a agricultura biodinâmico deve ser, no ideal, autosuficiente, gerando todos os recursos necessários para seu funcionamento – e também partes vegetais, como restos de podas, plantas que morrem, folhas que caem, etc. Parte vegetal e parte animal devem estar equilibradas – e tem muito agricultor que usa somente compostos vegetais, também. Esse composto é deixado por alguns meses, fermentando, para depois ser aplicado nos vinhedos. Além disso, pode se utilizar alguns preparados de plantas, que ajudarão a fertilizar o solo e dar à ele as propriedades necessárias para uma maior vitalidade. Tenho certeza que muita gente faz compostagem em casa, no sítio, e nem sabia que isso era utilizado na agricultura biodinâmica.

Preparados de plantas para compostos.
Milfolhas (502), Camomila (503), Urtiga (504), Casca de carvalho (505), Dente de leão (506) e Valeriana (507) são as plantinhas mágicas que Steiner escolheu para dar uma força extra para o adubo – o composto que falamos acima. Segundo ele, esse é o futuro do fertilizante. Um preparado natural que vai dar ao solo tudo o que ele precisa, sem produtos sintéticos. A Camomila, por exemplo, tem cálcio e nitrogênio. A Mil-folhas tem selênio, a Urtiga tem ferro, e por aí vai. Cada um desses preparados é feito de uma maneira específica, para depois ser adicionado ao composto. O interessante é que em cada local, existem plantas que podem substituir ou complementar esses compostos.

Esses são os principais – mas existem muitos outros preparados utilizados por viticultores biodinâmicos, sejam eles mais tradicionais ou menos. Como eu já havia dito, o viticultor tem liberdade para ir pesquisando, estudando e encontrando dentro do seu vinhedo ou dentro de sua propriedade agrícola outros insumos para seus preparados e infusões e ervas, plantas, etc – que supram as necessidades de seu plantio.
A aplicação dessa filosofia costuma ser bastante rígida. Ou seja, você não consegue ser “meio biodinâmico”. Ou você é ou você não é. Principalmente se você estiver dentro de algum grupo ou selo regulamentador. Existe muito produtor que faz práticas biodinâmicas mas “aplica um pesticida de vez em quando”. Ora bola, não vou nem comentar. Não é biodinâmico nem no dedinho do pé. Mas é o preço da fama e da modinha, e hoje infelizmente todo mundo quer ser biodinâmico, todo mundo tem um rótulo orgânico ou vinifica de forma natural.
Existem, claro, muitos produtores que fazem “manejos biodinâmicos”, mas não são tão rígidos e nem estão dentro de algum selo ou grupo – utilizando algumas práticas biodinâmicas que mais lhe parecem interessantes, e outras não. Pois o interessante do manejo biodinâmico é que ele acaba restaurando e melhorando o solo, as plantas, o equilíbrio e a vitalidade do ambiente – coisa que somente o manejo orgânico pode não alcançar. É um cultivo muito indicado para quem visa restaurar o ambiente, ao invés de apenas cultivar. Solos degradados, por exemplo, acabam se recuperando mais rápido com manejos biodinâmico – que são ativos na restauração do equilíbrio natural.

23/8/2016
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