Viagens

Naturebas da Espanha: Bodegas Marenas, em Montilla.

“El vino natural es el vino libre. Buscamos em la tierra la memoria perdida de los vinos de antes. “
Assim começa o texto do site da Bodegas Marenas, de José Migue, que produz vinhos naturais na região de Montilla. 

José Miguel é de uma simpatia contagiante. Parece redundante falar isso de todos os vinhateiros que visito, mas parece ser uma constante o vinho natural=pessoas interessantes. E sim, na maior parte das vezes, simpáticas e encantadoras. Acho que a pessoa que se desprende das convenções para poder fazer um vinho muitas vezes escorraçado pelos demais deve estar ligado de alguma maneira à isso…rss…. 

Mas fora sua simpatia e suas histórias fantásticas ( de como por exemplo a vigilância sanitaria mandou tirar o sofá dele, de dentro da bodega, pois ‘não estava de acordo com as normas’, os vinhos são um caso à parte. 

Foi lá que eu levantei as mãos pro céu e disse “senhor, finalmente eu tenho um fino que posso beber a garrafa inteira, sem me estrepar no dia seguinte com o fígado e com a cabeça imprestáveis!”. Pois é isso que a maioria dos Jerez e dos finos de Montilla fazem – são sensualmente cativantes, no nível do vício, mas te destróem o corpitcho. Tem Jerez que leva nada mais nada menos que 400mg/L de SO2. É conservante pra caaaarvalho. Então quando me deparei com o Bajo Flor e com o Amontillado que ele está fazendo, praticamente chorei de emoção. E depois de tristeza, pois os vinhos ainda não vem pro Brasil……… 

Os tintos são sérios e pirar muito cabeção de sommelier por aí. Pinot Noir e Syrah de Montilla? Acuma? 

Faz também um Moscatel passificado ao sol, com leveduras naturais e fermentação espontânea ( vinhos doces vinificados naturalmente são raros, pois muito açúcar e muito álcool dificultam a fermentação das leveduras ), um vinho “bajo flor”, ou seja, um fino, vinificado naturalzérrimo – e jesus amado, um absurdo de bom. Ah, e claro, um vinho branco de Montepilla, uma variedade esquecida pelo povo local. 

Em sua adega subterrânea, ele guarda alguns tesouros – como os primeiros vinhos da Bodega, e também alguns barris que ele está criando os amontillados. 

Pra quem não sabe, a região de Montilla Moriles é a prima esquecida de Jerez. Faz vinhos “quase que parecidos”, mas tem mais história que a prima pop, e faz vinhos com flor antes que os jerezanos. Aparentemente, é uma região antiquíssima de vinhos. 
Explicando muito por cima, os vinhos tradicionais de Montilla se assemelham com os vinhos de Jerez, embora sejam muito diferentes ( ?! frase estranha…. ). Os típicos são os… Amontillados. Pois é, o nome vem daí e pode parecer meio óbvio, mas para quem sempre estudou só os vinhos de Jerez, não é tão óbvio assim. 
Falando com muita gente de lá, descobrimos que o estilo Amontillado – que depois migrou para Jerez, embora lá eles façam com a uva Palomino Fino – vem da região de Montilla mesmo. Eles já usavam a técnica de deixar o vinho em contato com um pouco de ar, até formar a flor – de leveduras. Como a influencia marítima, ventos e terroir são únicos, as diferenças de estações faziam com que a flor de leveduras – que em Montilla, naturalmente, é bem fina – aparecesse e morresse ao longo dos anos, deixando os vinhos ora com características oxidativas, hora com características de criança biológica ( quando tem a flor ). 
Outros vinhos feitos em Montilla-Moriles são os finos – mas aqui elaborados com Pedro Ximenes – e os vinhos jovens de tinaja – elaborados com Pedro Ximenes, também, mas em tinajas de barro. Também são feitos Olorosos e doces. 
Uma curiosidade é que na região de Montilla os vinhos não precisam ser fortificados, como em Jerez, que se adiciona álcool vínico para eles chegarem numa graduação alcoólica mais alta. A Pedro Ximenes é uma uva de amadurecimento muito bom, e acumula muito açúcar. Por isso, fermenta dando origem a vinhos com 15 graus ou mais de álcool. E sim, com leveduras próprias, sim senhor. 
Chegamos na região de Montilla para visitar o Bodega Marenas – indicação do Lorenzo, lá da Barranco Oscuro. Eles se conheceram e obviamente se identificaram pelo trabalho que estavam fazendo. José Miguel estava totalmente sozinho, em Montilla, fazendo vinhos naturais – quase que sem querer. 
Antes que eu me esqueça, isso não é um cogumelo, aí em cima. É que como as barricas de José Miguel são centenárias, as “rolhinhas” das barricas, também. E as antigas eram feitas de madeira. 
José Miguel Márquez é o vinhateiro responsável pelas pérolas dessa bodega. Isolado no meio de grandes produtores industriais, na região de Montilla ( Montilla-Morilles), ele produz vinhos naturais e começou fazendo isso de maneira quase espontânea. A família já vendia uva e mosto para cooperativas locais, mas  ele sempre achou que a maneira de ver os vinhos e de viver os vinhos não era a mais saudável. Os agricultores não faziam mais seu vinho, o vendiam a um preço muito baixo, e mal conseguiam viver decentemente. Na sua adolescência, chegou até a desistir do vinho. Mas depois de uma viagem ao vale do Loire, também na adolescência, onde ele entrou em contato com famílias que viviam bem fazendo seu próprio vinho, que ele decidiu partir para um caminho diferente. Em vez de vender sua produção, começou a fazer seu vinho. E sem nenhum aditivo. 
O caminho pelo vinho natural foi quase que espontâneo, pelo bom senso do “saudável” e da vinificação “simples”. Pra que adicionar algo no vinho, se não precisa? Pra que adicionar alguma coisa na videira, se ela não precisa? Obviamente, hoje em dia José Miguel está totalmente ciente do que ele acabou trilhando, e de como esse movimento pela volta de um vinho autêntico, saudável e verdadeiro pipocou no mundo inteiro nas últimas décadas. 
“Minha filosofia é baseada no cuidado das vinhas , e respeito ao meio ambiente . O resultado é um vinho natural, vinho que expressa a natureza do terreno e do clima do lugar , num ambiente mediterrânico ; Sem mais que a fermentação do suco de uva , sem aditivos. Procurando na terra a memória perdida dos vinhos de antes. Uma terra singular, de albariza e areia e um clima extremo , que favorece uma maturação perfeita das variedades ; e a ausência de mau tempo , resulta uma colheita de uvas completamente saudável vindima após vindima. Em suma, um lugar ideal para buscar a máxima expressão do vinho natural …”

Ele começou o trabalho em 1998, comprando com dinheiro emprestado as terras em Pago Cerro Encinas. Um ano depois, enxertou as vinhas brancas e tintas. Opa, tintas?! Mas não se plantava uva tinta em Montilla! Pois é, ele plantou. E foi o primeiro da região a fazer isso – o que lhe concedeu o prêmio de Agricultor do Ano em Montilla. 


“Creo que la gente entonces pensó que yo estaba un poco loco, ¿uvas rojas en tierra de vinos blancos generosos?… Pues sí, lo hice, y lo hice porque la tierra no entiende de colores, ni de variedades; la tierra, como buena madre, nos acoge. Hay que señalar que en mi región hay una cepa implantada por encima de todas que es la Pedro Ximénez. Se dice que es la cepa autóctona, aunque se sabe que antes de la P.X. había un cultivo multivarietal, donde cepas blancas y tintas convivían en la misma región. De hecho hay zonas de la comarca que estuvieron elaborando vinos tintos hacia 1930, y supongo que estuvieron presentes hasta no hace mucho. Todo esto se fue perdiendo con la industrialización del vino. Por tanto me planteé también recuperar esa riqueza multivarietal que había desaparecido.” 

Quando perguntei o porquê do nome Marenas, a resposta foi inesperada e um tanto quando filosófica. E linda, inclusive. Ele disse que da mesma maneira que o mar e a areia estão juntos, na praia, e se confundem muitas vezes – o mar querendo ser areia, a areia querendo ser mar – o homem e o vinho também. O homem que faz o vinho quer ser o vinho. Mas também não é.  Confesso que dei uma choradinha quando ele terminou de falar. 

Ele planta Montepila , Moscatel, Monastrell, Tempranillo, Syrah, Pinot Noir e Pedro Ximenes. 

A Montepila é uma variedade local totalmente esquecida, pois quando as grandes cooperativas e empresas que compravam mosto – inclusive para levar para Jerez e completar a graduação alcoólica dos vinhos de lá –  começaram a pagar pelo grau alcóolico, a competição ficou desigual, e todo mundo começou a plantar só Pedro Ximenes, pois dava um mosto mais alcoólico. 

Ele faz um vinho de Montepila, uma variedade branca de bagos grandes, que amadurece rápido. Era usada para cortes com PX, que tendia a perder água e acumular muito açúcar, dando um vinho mais equilibrado se juntasse as duas. Hoje ele faz um vinho varietal, delicioso e delicado.
O terroir não poderia ser mais intenso: é uma das maiores incidência de luz da Europa, com mais de 3000 horas ao ano de luz. Fotossíntese bombando – ou seja, o ciclo da videira acontece bem mais rápido por lá, e mais cedo do que na maioria dos outros lugares. A brotação das uvas precoces, como a Moscatel e a Tempranillo, já tinham começado quando cheguei, lá por meio de Março. 
4/5/2015
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