Divagações

PRIMEIRO DIA NA GRECIA – PINOT NOIR DOS DEUSES

Meu primeiro dia em terras sagradas, na verdade foi uma noite. Depois de onze horas me espremendo dentro de um avião para Paris ( sim, na deliciosa classe econômica da Air France…. que pelo menos oferece um Camembert de consolo pelo aperto )  e mais quatro para ir para Athenas, cheguei como qualquer ser humano chega em terras estrangeiras. Um mixto de sono, mal humor, excitação e cabelos desgrenhados.

Como um bom banho resolveu boa parte desses problemas, corri para o centrinho histórico de Athenas para passear um pouquinho e atiçar minhas papilas gustativas. O centro histórico de Athenas não é dos maiores. Fica em uma cidadezinha muito antiga, aos pés da Acrópole, chamada Plaka. Ali estão apinhados muitos restaurantes, “lodjinhas” de quinquilharias e, claro, milhares de turistas. Alias, acho que o que mais me incomoda nas cidades turisticas, por mais paradoxal que pareça, é o próprio turista.

Ficamos batendo perna por Plaka, que fica linda de noite. Alguns restaurantes colocam musica grega ao vivo nas calcadas, a grande maioria das mesas tem luz de velas… e quando você olha pra cima, esta la, imponente e intimidante, a Acrópole, toda ilumidada.

Eu sou uma pessoa chata. Em vários aspectos. Escolher um restaurante, pra mim, é uma das minha chatices. Por isso, comprei 3 guias turísticos, cruzei as informações deles, e ainda perguntei a opinião de dois concierges ( em turnos separados, afinal, vai que eles se comunicam… ) do hotel para saber qual seria a melhor opção de gastronomia e vinhos de Plaka. 

Minhas condições: boa carta de vinho, gastronomia tradicional sem ser turística, mesas ao ar livre e localização no bairro antigo. Não estava afim de pegar um carro e fazer meu marido vestir um terno, estando trinta graus pela noite, e me enfiar num estrelado Michelin sem poder ver a lua cheia que despontava no céu.

O  engraçado é que os concierges ( hmmm, sempre descofio dos concierges…) foram unânimes, assim como meu cruzamento caseiro de dados pela internet e pelos guia. O eleito da noite seria o Daphne’s.

Aqui faço uma pausa para dizer que, para qualquer pessoa que goste da cultura e mitologia grega, é realmente muito engraçado você dar de cara a todo o tempo com nomes como esses, que te remetem diretamente  a essas historias tão fascinantes.  A garçonete  do restaurante se chamava Afrodite, e o maitre se chamava Dioniso!  Onde mais, senão na Grécia, você poderia ser atendido por uma Afrodite e um Dioniso, lindos, bronzeados e com os botões das camisas abertos mais do que o normal? So na Grécia!

 

Mas voltando…

O Daphne’s é um cantinho muito gostoso. Como eles mesmo gostam de citar no cartão de visitas, o restaurante foi citado pelo The New York Times, Financial Times of London, CNN, etc, etc, etc. Não que isso faca a mínima diferença pra mim, mas acho que pra eles com certeza faz. A carta de vinhos foi uma das melhores que eu encontrei em Plaka. Bem feita, com muitos rótulos divididos pelas regiões gregas, alem de alguns rótulos internacionais.

É bastante desesperador pegar uma carta de vinho em grego. Mesmo quando eles não usam os caracteres gregos, a sensação é de uma ignorância infinita. São poucos os rótulos que chegam no Brasil, e mesmo assim, não temos o costume de bebe-los. Por isso, se torna quase que um “safári” desvendar uma carta de vinhos grega.

 
Para nosso espanto, um rotulo chamou a atenção. Um Pinot Noir biológico, da região do Peloponeso, Nemea: Pinot Noir Papaioannou Estate. Tentem falar isso rápido pra ver a bela contorção de língua que não da.

Para meu espanto, embora a Grécia seja um pais bastante quente, o resultado da Pinot Noir é muito interessante. Este exemplar, em especial, era muito elegante, de corpo médio, e extremamente característico da cepa. Um hibrido entre o estilo Frances e o estilo novo mundista de vinhos de Pinot Noir, mais ou menos, tendendo bem mais para o primeiro. Com cultivo 100% biológico e certificado, já ganhou nossa simpatia por ai.

Esse produtor tem mais alguns outros rótulos que valem a pena provar. Mesmo la na Grécia, não foi muito fácil achar esses vinhos nas prateleiras, mas para quem for pra la, fica a dica. Um vinho delicioso, na faixa dos 35 euros na carta de vinho, que desbanca logo de cara o mito de que a Grécia so faz vinhos brancos.

 

No jantar, para começar bem turista, pedimos uma salada grega. Gente, como eu gosto dessa combinação. Azeitonas, cebola, muita cebola, pimentões, queijo feta, tomate, alcaparras e mundos de azeite. Alguns ainda colocam orégano fresco e tirinhas de anchovas, o que da um toque diferente e bem saboroso a receita.

Como principais, pedi um cordeiro assado e o Ramatis pediu um porquinho picante. O cordeiro vinha num molho de iogurte ( se eu mataria os gregos por inveja, com certeza seria do iogurte deles… ) com hortelã, e o porquinho com um molho apimentado de….. bem, não consegui identificar o que era, mas parecia alguma coisa com páprica, zatar e outros temperos bem fortes. E gostosos, acima de tudo, o que é mais importante.

Para finalizar a refeição, uma sobremesa improvável: Iogurte grego de cabra ( malditos!! ) com calda de rosas. Agora, ca pra nos…. quando pensamos em calda de rosas imaginamos aquela caldinha gostosa dos nossos restaurantes árabes, feito com água de rosas e açúcar. Pois bem, mais um tapa na cara. A calda de rosas, aqui, era feita mesmo com as pétalas de rosas. Pétalas brancas e pétalas rosas, em compota. Um arraso.

Para digerir isso tudo ( desculpinha de bêbado… ) , eles nos ofereceram um licor típico grego, o Mastika. Feito de almíscar,  tem o mesmo gosto dos sorvetes e caldas de Miski que usamos aqui no Brasil para a culinária árabe. É  um licor extremamente doce e alcoólico, ideal mesmo para o final da refeição. E não é que o bichinho ajuda mesmo na digestão?!   

Depois te tomar dois shots, eu repetiria o jantar inteiro!

21/9/2011
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