Divagações

Comer, Beber, Amar…

Comer, Beber, Amar…

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Nossa vida se passa em torno de uma mesa.

E isso não é uma metáfora, nem tampouco um comentário que reduz nossa existência a uma situação cotidiana e potencialmente engraçada, por tão simples. Se paramos para pensar, é a mais pura verdade. Passamos a nossa vida em torno de uma grande mesa: comendo, bebendo, interagindo com outras pessoas, sempre nos surpreendendo com os pratos, com as bebidas… e com as próprias pessoas, é claro.

Quantas idéias maravilhosas, quantos assassinatos, quantos tratatos, quantos textos, conversas e quantos amores não tiveram início em torno de uma mesa? Quantos impérios e quantas pequenas delícias e pequenas frustrações já não nos foram colocados como prato principal? Quantos autores e quantos filmes não retrataram o grande banquete que é a vida? Ora como um lanche frugal, ora como uma grande orgia gastronômica; digesta ou indigesta; doce ou ácida, a vida se resume a comer e beber, seja com a boca, seja com os olhos, seja com os ouvidos ou com nossa vã filosofia.

Nos reunimos com a família para almoçar; a mãe alimenta seu filho; o inimigo brinda com seu desafeto; o noivo entrega a aliança em um jantar; os parentes se xingam em um domingo na casa da irmã; o executivo acaba de fechar um ótimo negócio em um almoço nos jardins; doces especiais são servidos num casamento; doces especiais são servidos em um velório; o enólogo serve o vinho para os convidados com um brilho nos olhos; Baco descobre que o vinho causa a embriaguês nos mortais e nos deuses, tornando-os iguais; os amigos da faculdade encaram uma coxinha e litros de cerveja; os paulistas descobrem um novo restaurante japonês; pessoas desconhecidas brindam com um espumante em um ano novo; o viticultor colhe as uvas enquanto a tia faz um pão em casa; a namorada cozinha um jantar especial para impressionar o novo moço; uma maçã envenenada é colocada para a Branca de Neve; uma cobra sai de um cesto de uvas e mata a grande Cleópatra; a neta aprende a fazer aquele prato que a avó mais gosta.

E tantas outras coisas… e tantas outras porções, outros goles. Encontramos amores e desamores nas mesas da vida. Nos apaixonamos por pessoas, por comidas e por vinhos. Encontramos aqueles que queremos dividir nossa mesa, e aqueles que não queremos mais.

Estamos o tempo inteiro degustando e avaliando a vida. Da mesma forma que fazemos com os vinhos, que fazemos com nossa comida. E tudo sempre, mas sempre, nos surpreende. Damos notas altas para algumas coisas e fazemos comentários inteligentes sobre outras.
Mas tudo sempre, sempre é melhor ou pior do que a gente espera. Um Haut-Brion 1981 ~pode nos frustrar. Um vinho de uva não vinífera em uma pizzaria pode nos surpreender. Assim como um prato elaborado por um chef talentoso pode nos levar às nuvens, e nosso ovo frito, tão bom e simples de todo dia, pode estar um dia sem gosto.
Assim são os vinhos. Assim é a gastronomia. Assim são as pessoas.
Mas nós sempre continuamos essa eterna busca; pelo prato perfeito, pelo vinho perfeito, pelas pessoas perfeitas.
E por mais que eu saiba que, todos nós, idealistas de uma realidade que nunca existirá, sempre nos frustraremos com as imperfeições, ouso dizer que no final das contas, comendo, bebendo e amando, acumulamos pequenas pérolas em torno de nossa mesa. Daquelas que, mesmo quando um Haut-Brion nos decepciona, estarão lá para nos lembrar o porquê tudo vale a pena.
Saúde!
28/11/2009
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